Uma eleição popular e um jantar da elite

Sobre CAMOCIM e O BANQUETE

O município pernambucano de Camocim de São Félix é conhecido pelas sangrentas disputas em torno do poder político, controlado durante 50 anos por uma mesma família. A cada quatro anos, para as eleições municipais, a cidade se divide entre os eleitores dos “partidos” Vermelho e Azul. Como na festa do Boi de Parintins.

O documentário CAMOCIM flagra a campanha de 2016, centrando-se na equipe do candidato a vereador César Lucena, do PMDB.

A não ser por alguns episódios de brigas na rua, a violência dava lugar a um processo pseudo-democrático, muito baseado no clientelismo e em alegada compra de votos. O filme adota o estilo observacional para registrar a gravação de jingle e vídeos, comícios, showmícios, passeatas, a busca do voto casa a casa e a animação que transforma a campanha numa festa de expansividade popular.

Somente isso já seria interessante como mergulho numa realidade bem particular, porque inteiramente local, sem elos visíveis com a política nacional ou mesmo estadual. Mas o maior acerto do diretor francês Quentin Delaroche (que mora no Brasil há nove anos) foi escolher como protagonista a jovem Mayara Gomes, chefe de campanha de César Lucena. Expressiva, desenvolta e apaixonada pelo que faz, Mayara – junto com sua mãe evangélica – é uma guia extraordinária através das emoções da corrida eleitoral. A sinceridade de suas intenções (apesar de estar servindo ao PMDB) ultrapassa visivelmente qualquer impressão de performance.

Não cabe cobrar aprofundamento no contexto da cidade, como já li por aí, uma vez que CAMOCIM não pretende mais que oferecer um instantâneo do fazer político regional. Mesmo assim, o que capta, com objetividade e razoável senso dramatúrgico, é suficiente para deixar entrever o peso das relações familiares, da oferta de entretenimento e das religiões pentecostais na forma como o Brasil profundo elege seus representantes.



Pobre Brunello de Montalcino. No fim das contas, o sublime vinho toscano pode acabar levando a culpa pelo comportamento dos personagens de O BANQUETE. Para aparentemente explicitar seu desprezo por certo estamento da elite cultural, Daniela Thomas reuniu nove atores em torno de uma mesa de jantar, numa maratona de overacting comparável a um grande porre. O texto foi escrito originalmente para o teatro.

Estamos nos estertores do governo Collor. O diretor de uma importante revista (inspirado em Otávio Frias Filho e seu entrevero com Fernando Collor de Mello) está na iminência de ser preso pela “Lei de Imprensa” depois de publicar uma carta aberta com sérias denúncias contra o presidente. Sua editora e o advogado da empresa são os anfitriões. As intenções do “banquete”, inspirado na Grécia antiga, vão se revelando cada vez mais indigentes à medida que avança a noite e novos convidados vão chegando. Na verdade, o que se arma é um “barraco” sobre traições conjugais e falta de caráter disfarçada de inteligência e franqueza obscena.

Independente das referências que possa haver a personagens da vida real, a ideia de contrapor a ética pública à hipocrisia privada soa naïf, o que surpreende vindo de Daniela Thomas. Nesse baile de máscaras sem máscaras, repleto de diálogos pretensamente venenosos, o que temos, afinal, é só um grupo de gente pretensiosa, cínica e repulsiva revezando-se numa espécie de concurso de maneirismos. A metáfora da planta carnívora, colocada já na abertura do filme, é desdobrada numa demonstração óbvia e cansativa. A acidez do humor, se houvesse, talvez tivesse aproximado O BANQUETE do inglês “A Festa”. Mas, infelizmente, não foi o caso.

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