Entre a escuridão e a fosforescência

LOS SILENCIOS – Festival de Brasília

É noite alta e silenciosa. A quilha de um barco singra as águas de um rio na primeira imagem de LOS SILENCIOS. Amparo (Marleyda Soto) e seus dois filhos estão chegando à casa da tia dela, na chamada Ilha da Fantasia, fronteira da Colômbia com o Brasil. Estão fugindo da guerra entre paramilitares colombianos e as FARC, pouco antes do acordo de paz assinado em novembro de 2016. Essa chegada noturna, quase fantasmal, é uma espécie de senha para o que veremos a seguir.

O marido de Amparo (Enrique Diaz) é um colaborador das FARC dado como desaparecido depois de ter feito uma denúncia importante contra uma empresa petroleira. Teria sido morto junto com uma filha, e Amparo espera receber indenização por suas mortes, tão logo encontrem os corpos. Enquanto a família procura se estabelecer na ilha, o silêncio da menina, as aparições clandestinas do pai e as menções a fantasmas instauram a dúvida quanto ao teor de realidade do que se passa na tela.

A diretora Beatriz Seigner (Bollywood Dreams) escreveu essa história com base em relatos de colombianos. Com a bela fotografia em claro-escuro da colombiana Sofia Oggioni, ela fez um retrato imersivo da tal Ilha da Fantasia (que apesar do nome é bem real), com suas casas de palafitas em meio à selva e ao Rio Amazonas. As referências a um projeto de construção de cassino e hotéis têm base em empreendimentos turísticos já existentes no local.

LOS SILÊNCIOS, portanto, esgueira-se enigmaticamente nas bordas entre fato e ficção. Por um lado, há o pano de fundo da violência de guerrilha e paramilitares. Numa sequência de impacto, sobreviventes reais emocionam-se ao relatarem suas dores e perdas num conflito entre irmãos. Em outros momentos, os personagens ficcionais encenam discussões sobre ocorrências do passado, como o acordo de paz e as ofertas dos empreendedores por suas casas.

O drama colombiano, tão próximo e tão desconhecido por nós, é representado aqui com gravidade e ao mesmo tempo delicadeza. Uma imagem como a da avó dormindo numa rede a poucos centímetros do chão alagado da casa transmite a ternura com que Beatriz retratou seus personagens. A atriz Marleyda Soto (A Terra e a Sombra) dá mais uma prova de talento ao dissolver a técnica numa perfeita caracterização de mulher do povo. Suas conversas com o filho estão um passo além da mera representação.

A linha tênue entre o natural e o sobrenatural pode desestabilizar a compreensão do espectador – sobretudo de quem não atentar para os nomes dos personagens de Enrique Diaz e da menina Maria Paula Tabares Peña. Mas é também nessa mescla de escuridão e fosforescência que LOS SILENCIOS encontra sua distinta personalidade.

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