O manifestante como inimigo

MARCHA CEGA

Letreiros no final de MARCHA CEGA avisam que nem a polícia, nem o governo paulista, nem o STF, nem os fornecedores de armas menos letais aceitaram o convite para participar do filme. Ficamos, portanto, somente com a palavra de um lado. Mas, nesse caso, é mais do que suficiente. O uso indiscriminado da violência pela PM de São Paulo contra manifestantes de esquerda ou anti-establishment é mais do que conhecida, ao menos do público que será alcançado por esse documentário.

Daí que MARCHA CEGA não traga insights mais originais sobre uma questão urgente da nossa democracia adoentada. Mas como documento de um período, sua validade é incontestável. O diretor Gabriel Di Giacomo reuniu arquivos da mídia independente desde as manifestações contra o aumento das passagens no fatídico junho de 2013 até a greve geral, em 2017. Ouvimos os relatos de jovens manifestantes sobre a forma como foram abordados, presos, espancados e intimidados por policiais em ocasiões que incluíam, ainda, ocupações de escolas, atos contra a Copa e contra o impeachment de Dilma Rousseff.

Um dos participantes é o fotógrafo Sérgio Silva, uma das várias pessoas que perderam uma vista, atingidas por balas de borracha e outros artefatos da repressão.

O painel se completa com depoimentos de Luís Eduardo Soares, do advogado ativista Guilherme Perissé, do socorrista Alexandre Morgado e do Tenente Adilson Paes de Souza, que estudou em profundidade os abusos da polícia. Do plano geral da análise depreende-se que a brutalidade policial é uma continuidade do modus operandi da ditadura: criminalizar o protesto, tratar o opositor como inimigo e usar a força para anulá-lo. A desmilitarização das polícias é a proposta que o filme abraça, afinal.

MARCHA CEGA usa dois dispositivos interessantes. Um é a tela preta servindo como fundo das entrevistas e também como quebras de narrativa que evocam o cerceamento das vozes e das liberdades. Outro são trechos da Apostila de Patrulhamento de Choque, que dispõe sobre os limites (costumeiramente ignorados) da ação policial.

A ausência do “outro lado” acabou sendo benéfica para o documentário, que assim escapou de uma visão meramente jornalística e marcou seu ponto de vista.

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