Stepan vai para o trono

CHACRINHA – O VELHO GUERREIRO

Cinebiografias de personagens tão característicos como o Chacrinha costumam depender demais da capacidade de imitação. É preciso fazer o personagem reencarnar de maneira convincente na tela, mesmo que todo o resto não funcione tão bem. Nesse modelo de filme, CHACRINHA – O VELHO GUERREIRO, de Andrucha Waddington, se impõe um desafio a mais: criar outros simulacros de gente famosa – e igualmente característica – que passou pelo programa. Gente como Elke Maravilha, Raul Seixas, Sidney Magal, Roberto Carlos, Clara Nunes, Wanderléia etc.

Até aí, ninguém pode buzinar o filme do Andrucha. É um espetáculo de mimetismo competente, sobretudo da parte de Stepan Nercessian com sua caracterização fenomenal do Velho Guerreiro. Já impressionante na peça de teatro, Stepan cola ainda mais na imagem de Chacrinha, ajudado pelo trabalho de montagem. A alternância da figura fanfarrona do palco com o Abelardo Barbosa irascível nos bastidores e atormentado na família compõe uma encarnação digna de todos os elogios.

Além disso, o roteiro de Claudio Paiva providencia para Chacrinha uma sucessão irresistível de punch lines, aquelas frases marcantes e divertidas que encerram diálogos, tornando o personagem um fonte quase ininterrupta de graça irreverente.

O êxito dessa composição acaba criando um certo desnível com os momentos em que Stepan não está em cena. As sequências da mocidade, com Eduardo Sterblitch no papel, demoram a “imprimir” uma marca reconhecível e sofrem com diálogos pobres e situações forçadas.

Outro aspecto que prejudica um resultado melhor é a inevitável superficialidade com que episódios importantes são tratados. Entre eles, a relação traumática com a mãe, as ambíguas relações de Chacrinha com suas chacretes e a inserção do programa de TV no mundo dos patrocínios e dos jabás.

À parte a imitação de estilos (de performance, figurinos, estúdios, etc), a ênfase maior está na pontuação em linhas gerais da trajetória do animador. Como que pulando de uma pedra a outra para atravessar um lago, seguimos a evolução do rádio à TV, as mudanças de emissoras, os dilemas entre manter a independência e ceder à máquina do showbizz, o affair com Clara Nunes, a “adoção” de Elke, os problemas com a esposa e com os três filhos.

No fim das contas, resta um perfil simpático e um tanto sanitizado do nosso maior comunicador. Mas quem vai mesmo para o trono é o velho Stepan.

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