Autoficção enferma

DOR E GLÓRIA

Na primeira cena de DOR E GLÓRIA, Antonio Banderas emerge de uma piscina e deixa ver uma grande cicatriz vertical no peito. O ator teve um ataque cardíaco há dois anos, mas não sofreu cirurgia de tal envergadura. Seu personagem, o cineasta e escritor Salvador Mallo, passou por uma intervenção no esôfago que pode lhe ter proporcionado aquela marca. Mas talvez a melhor interpretação seja metafórica: é o que ficou de Pedro Almodóvar ter aberto o peito para contar essa história em parte autobiográfica.

Nota: há muitas controvérsias quanto a essa cicatriz. Amigos me alertaram de que ela é nas costas. Revi a tomada no filme e continuo em dúvida porque o plano próximo não deixa muito claro, além de estar entre dois planos do Banderas de frente. Entre várias matérias e críticas que li, brasileiras e estrangeiras, prevalece a confusão: uns citam as costas (referência a uma cirurgia na coluna sofrida pelo Almodóvar), outros se referem ao peito.    

Almodóvar usa – um tanto canhestramente – a personagem da mãe de Salvador (Julieta Serrano) para explicar que está fazendo autoficção, ou seja, mesclando memórias e invenção. Discernir entre uma coisa e outra é tarefa que não cabe aqui, mas certamente a figura do cineasta gay, ligado à sensualidade, apegado à mãe e envolvido com drogas cabe tanto em Salvador como em Almodóvar (quase anagrama um do outro).

Para dar conta desse projeto, Almodóvar recorre a três criações ficcionais de Salvador. Através do seu filme Sabor, realizado 32 anos atrás e resgatado agora para uma exibição na Filmoteca de Madri, tomamos conhecimento de sua atual amargura com a carreira e consigo mesmo. Salvador refaz o contato com o ator de Sabor (Asier Etxeandia) e entra numa trip perigosa para sua saúde física e mental, ambas já abaladas.

O rascunho de um conto, chamado Vício, nos torna íntimos de um amor de perdição na juventude de Salvador. O reencontro com Federico (Leonardo Sbaraglia) é um dos trechos mais bem resolvidos do filme – e onde a atuação de Banderas, premiada em Cannes, exibe a mais rica densidade. Já a infância é evocada através de um dispositivo-surpresa, intitulado O Primeiro Desejo. É onde o pequeno Salvador descobre as letras e a sensualidade do corpo masculino.

Esses três módulos narrativos se articulam sem a fluência ou a elegância dos melhores filmes do diretor. Sugerem um Oito e Meio acometido pelo mesmo rol de enfermidades que se abatem sobre Salvador: problemas de coluna, dores de cabeça, engasgos frequentes e um bocado de depressão.

É claro que o gênio de Almodóvar não deixa de comparecer aqui e ali, sobretudo nas luminosas cenas da infância ou na explanação das doenças de Salvador com a ajuda dos desenhos de Juan Gatti. Mas, apesar da inspiração pessoal do cineasta, este me pareceu um filme pouco visceral dentro de sua obra. O melodrama não atinge sua dimensão irônica, como costumava acontecer, e patina no trivial quase sempre. Salvador, em sua indisposição criativa, pode ser Almodóvar um pouco mais do que este pretendia.

2 comentários sobre “Autoficção enferma

  1. A cicatriz não é no peito mas sim nas costas, referência da cirurgia na coluna que o Almodóvar fez.

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