A fala como performance

Turunguinha

Fui convidado por Larissa Lisboa para fazer uma pequena curadoria nos filmes do site Alagoar, iniciativa independente voltada à preservação da memória, à difusão e à formação no audiovisual alagoano. Estão disponíveis para visionamento mais de 300 filmes, entre curtas, médias e longas; documentários, ficções, animações e experimentais. Tudo realizado pela galera de Alagoas.

Inspirado por minha relação com o cinema de Eduardo Coutinho, destaquei no acervo seis curtas-metragens que têm a fala performática como mola propulsora. Coutinho dizia que a voz humana é o som mais belo que existe. Esses filmes, de certa forma, confirmam isso. Não a voz comum, burocrática, dos depoimentos formais, mas a fala popular, cheia de um colorido que se expande da boca para o resto do rosto e para o resto do corpo em expressões do olhar, meneios de cabeça, gestos.

Por mais que as imagens possam ser boas – e algumas são primorosas –, esses seis curtas se projetam pela performance oral de seus personagens, seja na fala, seja no canto. Tomemos Jegada, de Celso Brandão, por exemplo. A fotografia em preto e branco é de primeira qualidade, o tema é curiosíssimo, mas o que seria do filme se não fossem os depoimentos saborosos sobre o jegue, esse antecessor das motos no sertão? A prosódia sertaneja, tão crua quanto fascinante, nos transmite à perfeição os sentimentos contraditórios dos humanos para com o personagem animal.

Interiores ou 400 Anos de Solidão, de Werner Salles Bagetti, é um refinado ensaio audiovisual que experimenta o acoplamento e o desacoplamento entre sons e imagens. Do primeiro choro de um bebê à leitura de um texto brutal de Josué de Castro sobre mortalidade infantil no Nordeste, o curta trata obliquamente de fé, vida e morte sem qualquer sinal de obviedade. As vozes, na maior parte do tempo desencarnadas e desvinculadas da camada visual, criam um intrigante mosaico de transcendências, sem faltar o humor de um padre-estrela, tão típico da “modernidade” religiosa brasileira.

Em Nas Quebradas do Boi, o diretor Igor Machado promove o encontro entre o contemporâneo e o tradicional. O Bumba Alagoano e o hip hop da periferia de Maceió têm práticas comuns, que dividem no filme. Rap e repente são irmãos no tempo. As vozes performáticas se revezam e se apreciam mutuamente, avançando até pelos créditos finais.

A memória pessoal e coletiva, expressa em relatos, cantos e aboios, enche o ar enquanto assistimos a Sobrevivências, de Pedro da Rocha, mais um trabalho marcado pelo empenho formal e a pesquisa de uma relação não convencional entre o som e a imagem.

Por fim, mas não por menos, ressalto um certo ar pitoresco presente em Iraque – Terra da Esperança, de Douglas Nogueira, e Turunguinha, de Pedro Krull. No primeiro, a ironia contida no apelido da cidade determina a relação dos moradores com seu território. A comparação com o país conflagrado do Oriente Médio é rejeitada criticamente, mas incorporada como anedota e referida com múltiplas entonações pelos entrevistados.

De apelido trata também Turunguinha, como é conhecido o cordelista José Francisco Bezerra. Nesse sucinto perfil, ele reina sozinho com sua verve oral e corporal. O filme lança mão de uma edição “quebrada” que parece se conjugar com a fragmentação da oratória do personagem. E, numa sacada de mestre, conclui quando a voz do poeta também parece terminar, acossada pela tosse.

A palavra falada é o tesouro desses seis filmes. Eduardo Coutinho deve ter apreciado se os viu, e, caso contrário, certamente adoraria conhecê-los.

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