Cabul, a vida entre uma explosão e outra

CABUL, CIDADE NO VENTO no streaming

Segundo dados da ONU, no ano de 2018, quando foi gravado este documentário, o Afeganistão teve o maior número de civis mortos na última década: 3804, sendo 927 crianças. Mas o filme de estreia de Aboozar Amini não mostra nenhum cadáver, nenhuma situação de pavor e apenas o ruído de uma única explosão a certa distância. O documentário Cabul, Cidade no Vento (Kabul, City in the Wind) está interessado na vida que medra entre uma bomba e outra.

E o faz mostrando vinhetas do cotidiano de Abbas Tanay, motorista de ônibus metido numa trapalhada, e as crianças Afshin e Benjamin Amiri, filhos de um soldado que precisam se virar sozinhos. Abbas comprou seu ônibus particular a prestações e, impossibilitado de pagar, provocou um defeito no motor do qual agora não consegue se livrar. O veículo está caindo aos pedaços, e Abbas tenta administrar sua dívida do jeito que pode, entre pedidos de empréstimo, dependência de drogas e inveja da mulher que tem uma pequena renda garantida.

Afshin e Benjamin, por seu turno, rondam pelas ribanceiras de uma periferia poeirenta no verão e nevada no inverno. O maior arrasta o menor com um misto de cuidado e brutalidade. Atirar pedras ao léu parece ser a diversão predileta para crianças que vivem sob a ameaça constante de um inimigo que ainda não compreendem (o Talibã e o Estado Islâmico, então escondidos nas montanhas).

O fato de não mostrar a violência diretamente não diminui a atmosfera de medo e morte que afeta adultos e crianças. As notícias de explosões e ataques suicidas eram praticamente diárias. Os dois meninos são levados pelo pai para visitar os túmulos de vítimas de um atentado. Com cerca de três e sete anos, respectivamente, Benjamin e Afshin monologam e cantarolam obsessivamente sobre os perigos da guerra, com seus mortos e feridos. Amadurecidos prematuramente, seus sonhos são de morte e perdas.

Aqui e ali, Aboozar Amini troca a observação das ações por depoimentos frontais dos personagens, quando eles condensam suas preocupações com uma gravidade impressionante. Ao mesmo tempo que dimensiona a tragédia do Afeganistão nesse nível da vivência individual, Cabul, Cidade no Vento expõe exemplos extraordinários de vitalidade e sobrevivência. Com a volta do Talibã em agosto último, os ventos de Cabul certamente não são mais os mesmos.

>> Cabul, Cidade no Vento está na plataforma Filmicca.

 

Um comentário sobre “Cabul, a vida entre uma explosão e outra

  1. Carlinhos, bom dia. Tudo bem?

    O que você achou de ontem? Achei que o JBA não se preparou adequadamente e depois se arrependeu. Ele tem grandes histórias para compartilhar.

    Hoje, daqui a pouco, tem a live dos diretores dos cinco filmes da short list do Grande Premio do Cinema Brasileiro. Esqueci de convidar a turma.

    Amir Labaki e Melina Dalboni mediam a mesa: Bárbara Paz – Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou Caco Ciocler – Partida Carol Benjamin – Fico te devendo uma carta sobre o Brasil Lauro Escorel – Fotografação Toni Venturi e Val Gomes – Dentro da minha pele O evento é as 11h. Segue o link:

    Se der, peça para sua equipe disparar o convite aos participantes do Na Real Virtual.

    Obrigado mais uma vez pela oportunidade.

    Beijos,  

    Toni Venturi toni@olharimaginario.com.br +55 (11) 99900-8950

    http://www.olharimaginario.com.br

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