Minha mãe é uma peça

PÉROLA

Depois de uma estreia brilhante na direção com sua ousada versão de O Beijo no Asfalto, Murilo Benício desaponta um pouco com essa adaptação da peça autobiográfica de Mauro Rasi (1949-2003). Enquanto o material de Nelson Rodrigues lhe sugeriu a ênfase na qualidade teatral do texto, Pérola o levou para um tratamento mais pretensamente cinematográfico, com uma intensa comutação entre tempos e espaços.

É assim que apreendemos a ode de Mauro a sua mãe, Pérola, a alegria da família. A partir da notícia da morte de Pérola, enquanto se dirige ao velório, Mauro relembra o temperamento efusivo, as aspirações pequeno-burguesas e a franqueza desconcertante da mãezona fissurada numa caipirinha. O sonho de ter uma casa com piscina e 15 metros de frente era sucessivamente adiado porque sua mãe (avó de Mauro) custava demais a morrer e liberar a herança. A casa de Bauru era aquele típico lar de família italiana, com as três tias pitorescas, o marido empenhado em fazer o melhor possível e a filha engraçada que vai se casar com um noivo careta. Monicelli, mas com bem menos veneno.

É um caso a pensar se esse modelo de dramaturgia envelheceu um pouco. Afora isso, a montagem fragmentada dilui bastante as emoções e não consegue projetar significativamente o olhar amoroso e condescendente que Mauro dirige à família, especialmente à mãe. O fato de todos os familiares aparentemente ignorarem (ou serem indiferentes a) sua condição de gay soa um tanto implausível, mesmo para os anos 1970/1980.

O humor, elemento fundamental para sustentar esse olhar, é prejudicado por uma encenação exacerbada e ruidosa demais. Todos falam, gritam e gesticulam muito ao mesmo tempo, forçando um clima de alegre conflagração permanente. Fica cansativo e perde um tanto da graça potencial.

A direção de arte é prolixa em superfícies coloridas e adereços cenográficos para caracterizar uma certa cafonice simpática. Quanto às perucas, melhor deixar pra lá.

Mesmo nesse painel de excessos, a interpretação de Drica Moraes se sobressai pela entrega genuína da atriz (no palco, Pérola era vivida por Vera Holtz). Murilo Benício acerta o centro do alvo nos poucos momentos em que parece se inspirar no estilo cálido e langoroso de Terence Davies, como em alguns devaneios de Mauro (Leonardo Fernandes) ou na conversa com a mãe morta. De resto, Pérola é um filme tecnicamente bem resolvido e de comunicação fácil, mas que não ousa saltar do trampolim.

>> Pérola está nos cinemas.

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