Notas sobre O RIO DO DESEJO, SAINT OMER e OS SEGREDOS DO UNIVERSO POR ARISTÓTELES E DANTE. Todos no streaming
A danação se chama Anaíra
A mulher como elemento de dissenso entre homens até então harmônicos é um mote clássico de dramaturgia que já passou da hora de ser superado. Infelizmente, é disso que trata O Rio do Desejo, filme inspirado em conto de Milton Hatoun. Ambientada às margens do Rio Negro, num Amazonas tipicamente hatouniano, a trama aborda três irmãos que, apesar das óbvias diferenças, parecem se entender bem sob um mesmo teto. Até que um deles traz para casa a sensual Anaíra (Sophie Charlotte), a maçã da discórdia.
Dalberto (Daniel Oliveira) é o marido, que troca a carreia de policial por barqueiro empreendedor. Dalmo (Rômulo Braga), o mais velho, é um fotógrafo reprimido e soturno, presa de uma relação edipiana com a mãe que abandonou os filhos ao partir com um amante. Sua atração por Anaíra é fetichizada por meio de fotografias. O caçula, Armando (Gabriel Leone), é moderninho e gerencia uma banda de brega paraense. Anaíra, por sua vez, está em busca de prazeres. Daí que uma viagem longa do marido a deixa à mercê dos desejos seus e dos cunhados.
O ar amazônico faz os personagens transpirarem suor e sensualidade sob os olhares apreensivos – mas afinal inócuos – de uma velha empregada (Petta Catão). São todos movidos por impulsos primais como a libido, a autorrepressão, o mal-estar e a culpa. Desde cedo, os prenúncios de uma tragédia ficam claros, da mesma forma como outros elementos são “telegrafados”, gerando previsibilidade.
A época parece ser a atual, muito embora ainda se manuseiem fitas cassetes. Os diálogos padecem de uma deficiência típica do cinema brasileiro mais convencional: são estritamente funcionais, ou seja, existem somente para fazer a história avançar. Não criam a impressão de um fluxo de vida plausível.
Isso posto, é preciso dizer que a produção dos Gullane é caprichada, a fotografia de Adrian Teijido atende bem à evolução da narrativa rumo a uma tonalidade cada vez mais sombria, e o elenco preparado por Fátima Toledo sustenta o clima mesmo quando o ritmo se arrasta um pouco.
Sergio Machado repete, a meu ver, o balanço de ganhos e perdas de Cidade Baixa: uma busca bem planejada por um cinema voluptuoso, denso e de boa fatura técnica, mas que não chega a quebrar o molde do estabelecido.
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Medeia no tribunal
Na noite de 19 de novembro de 2013, Fabienne Kabou levou sua filhinha de 15 meses à praia de Beck-sur-Mer, na Normandia francesa, amamentou-a e em seguida largou-a na areia para que as ondas da maré alta a levassem. Presa, foi julgada e condenada a 15 anos de cadeia.
Esse fato verídico inspirou a documentarista Alice Diop (Nós) a escrever seu primeiro filme de ficção. Em Saint Omer, quem está diante do tribunal é a contraparte ficcional Laurence Coly (Guslagie Malanda), imigrante senegalesa que a tudo responde com frieza e algumas ambiguidades. Ela admite que matou a filha, mas alega que não pode ser responsabilizada por isso. Diz-se vítima de feitiçaria, muito embora seja iniciada em filosofia ocidental. Acusa de negligência o pai da criança, um homem mais velho e casado.
O caso ganha ares de complexidade no curso de três longas audiências, filmadas com total hieratismo, em planos fixos e de duração prolongada. Ouvem-se os argumentos da promotoria (bem menos) e da defesa, que no filme detém o privilégio da palavra final. Fica evidente que Alice Diop, talvez por sororidade ou simpatia racial, problematiza a simples acusação de infanticídio para buscar razões psicológicas e subjetivas da parte de Laurence Coly. A ponto de, como sustenta a defesa, levantar a hipótese de que a mãe, na verdade, seria a grande vítima.
Como em todo julgamento público desse tipo, cabe às palavras e à retórica o papel decisivo. E o próprio filme encampa essa retórica ao não prosseguir até o veredicto, como no caso real. Deixa para nosso julgamento uma exposição ficcional desequilibrada e um tanto manipulativa.
Saint Omer ganhou o Prêmio do Júri e o Leão do Futuro no Festival de Veneza, tendo representado a França na disputa pelo Oscar internacional. Escolhas bastante discutíveis, apesar do rigor cênico demonstrado pela diretora. Toda a história de Laurence Coly é mostrada através da moldura de outra mulher negra, a escritora Rama (Kayije Kagame), um óbvio alter ego da cineasta, que assiste ao julgamento, toma notas e grava os depoimentos. Ela quer fazer uma adaptação moderna da tragédia Medeia, de Eurípedes. No entanto, está grávida, e os eflúvios de Laurence acabam por atingi-la. Arma-se, então, um frágil arcabouço dramático sobre maternidade, indiferença familiar e transferências psicóticas. A postura rígida das duas atrizes principais e a extrema sobriedade do relato não facilitam muito a fruição do filme, que não vai muito além de uma mera encenação dos anais do julgamento.
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Enrustidos no Texas
Aristotle and Dante Discover the Secrets of the Universe se passa em fins dos anos 1980. Se tivesse sido feito naquela época, talvez fizesse algum sentido contar dessa maneira uma história de enrustimento gay entre garotos mexicano-americanos no Texas marcadamente homofóbico e transfóbico da era Reagan. Hoje parece um simples anacronismo dramatúrgico, sem que o tempo decorrido tenha acrescentado uma perspectiva diferenciada.
Há uma óbvia aproximação afetiva entre os dois garotos “diferentes” do resto, uma resistência em aceitá-la por parte de um deles e um amor que prospera à distância através de cartas com frases tão inventivas quanto “todos temos nossas próprias guerras”. Há dois pares de pais EXTREMAMENTE compreensivos, uma tia ainda mais bacana, um trauma familiar no passado recente e nenhum conflito que transponha a epiderme do clichê e do previsível. O que a direção de Aitch Alberto, uma mulher trans, pretende como delicadeza e sensibilidade resulta apenas melífluo e déja vu.
O fato de Aristóteles e Dante se chamarem assim sugere somente um efeito de título, sem qualquer ressonância interna que eventualmente possa ter no livro homônimo que deu origem ao filme.
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