HAMLET
Em 2016, Dilma Rousseff resistia contra o golpe parlamentar-judiciário-midiático, e estudantes de vários estados brasileiros ocupavam escolas em repúdio ao sistema educacional vigente. Em Porto Alegre, o cineasta Zeca Brito – um dos mais ativos no cinema gaúcho – capturava o cotidiano de algumas ocupações e as manifestações dos secundaristas nas ruas da cidade. Usava uma estética “1968”, digamos assim: gravações improvisadas no ato, num preto e branco altamente contrastado.
Podia ser um simples documentário sobre as ações da galera naquele período conturbado. Os estudantes se organizavam em ações coletivas, fechavam ruas, pressionavam autoridades estaduais e ficavam a ponto de ser reprimidos pelas tropas de choque. Dentro das escolas, faziam discussões, viviam rachas internos, assim como dedicavam-se aos games, raps e celulares. Jean-Claude Bernardet fez uma “participação especial documental” em palestra aos ocupantes, criticando ao seu feitio o papel dos intelectuais na suposta formação de consciência dos trabalhadores e diagnosticando a nova juventude à sua frente.
Mas Hamlet, como anuncia seu título, não é um simples documentário. Zeca Brito (autor de bons filmes sobre Glauco Rodrigues, Tarso de Castro, o Grupo de Bagé e a Rádio Legalidade) insere um personagem ficcional que hesita entre observar, participar e assumir um lugar de liderança na luta estudantil. O ator Fredericco Restori atravessa o filme de maneira não muito regular nesse papel. A indecisão do personagem parece contaminar o próprio filme, que não sabe muito bem que caminho tomar.
O lusco-fusco entre os registros tem momentos curiosos. Em dois deles, o cinegrafista do filme (ou seria o próprio diretor?) entra em choque com uma repórter da TV Record e depois com um funcionário da Secretaria de Educação de Porto Alegre. Em dois outros, Fredericco conversa com seu pai, o também ator Marcelo Restori, sobre os dilemas do príncipe shakespeareano e a necessidade de “ser” para mover a ação e criar uma trajetória. O conselho cai no vazio. Esse Hamlet gaúcho não consegue se impor como personagem, nem como ferramenta de discussão sobre a demanda de liderança num movimento que se pretendia horizontal e apartidário.
Já perto do final, uma sequência traz Fredericco partido em dois através de várias trucagens óticas. Tenta-se expor em imagens metafóricas o que o filme não obteve dramaticamente. Como ápice de sua ação vacilante, Fredericco logra entregar uma pauta de reivindicações dos estudantes a Dilma, por ocasião de um ato público a que ela compareceu em Porto Alegre.
Além de suas dificuldades de construção, pesa sobre Hamlet o tempo decorrido entre as filmagens e a finalização em 2022. Passados oito anos e um governo fascista, e depois de alguns filmes marcantes sobre as ocupações estudantis e a luta contra o golpe, as oscilações desse rapaz perderam o senso de oportunidade.
Mesmo num filme frustrado, resta a inquietação do diretor, que pode ser reconhecida se retroagirmos a 2016 e vermos Hamlet como se ainda estivéssemos lá. Vale a tentativa.
>> Hamlet entrou em cartaz em Porto Alegre.

