Poesia e dores da Europa por duas grandes diretoras

Notas sobre os filmes LA CHIMERA e ZONA DE EXCLUSÃO

Este post é dedicado à memória do crítico de cinema Ely Azeredo (1930-2024)

Um pequeno monstro poético

Alice Rohrwacher encantou meio mundo com sua fábula social Lazzaro Felice, ainda hoje disponível na Netflix. Nos anos subsequentes se limitou a alguns curtas e um documentário compartido com outros diretores. Seu passo seguinte no longa de ficção é La Chimera, mais uma obra poeticamente misteriosa e ambientada numa Itália rural meio mágica.

São dois os eixos dramáticos em ação, ambos centrados num jovem inglês temperamental e dotado de sensibilidade especial para localizar coisas invisíveis aos olhos. Quando o filme começa, Arthur (Josh O’Connor) está voltando da prisão para o convívio com um grupo de “tomberoli”, violadores de tumbas antigas para roubar peças etruscas enterradas com os mortos na Antiguidade. Ele também está atrás da imagem de sua amada desaparecida, que vê em sonhos e devaneios.

As duas narrativas se imbricam na escrita muito livre e particular da talentosa diretora italiana. A montagem idiossincrática retarda um pouco a compreensão dos personagens e do que se passa com eles, mas aos poucos chega a recompensa, sobretudo em forma de comédia. A trupe de ladrões, que também se apresenta em teatro de rua, é formada por trapalhões rústicos. Criminalidade e inocência andam juntas nessa visão um tanto irônica da relação dos italianos com sua memória ancestral.

O filme se abre num leque maior de interesses que nem sempre se comunicam a contento. Arthur refaz o contato com sua ex-futura sogra, vivida por uma Isabella Rossellini artificialmente envelhecida, e cai nas graças da jovem e ingênua Itália. Nesse papel, a brasileira Carol Duarte faz a personagem mais cativante do filme, falando ora em italiano, ora em português.

Algumas pontas ficam sobrando na tênue costura desses vários subplots. Daí que o título “Quimera”, referente aos sonhos dos personagens, possa se aplicar também a esse estranho filme, um pequeno monstro composto de partes heterogêneas – assim como a peça etrusca que desencadeia a reviravolta final. Nesse sentido, é quimérico também pelas mudanças bruscas de tom e de textura visual, bem como de perspectiva nas várias cenas em que a imagem vira de ponta-cabeça para exprimir uma vertigem ou uma inquietação.

No fundo, La Chimera é também uma rapsódia composta por canções populares e árias de ópera. Tem ecos fellinianos, ao passo que Lazzaro Felice tinha ressonâncias pasolinianas. De alguma forma, Alice Rohrwacher já se inseriu numa linhagem de cineastas italianos tão originais quanto sedutores.

>> La Chimera está nos cinemas.



Um drama de fronteira dilacerante

É louvável a vitalidade de Agniezka Holland aos 75 anos para realizar esse intenso drama sobre a situação de refugiados na fronteira da Polônia com a Belorússia. Ali têm morrido milhares de pessoas que tentam entrar na União Europeia via Polônia. Os dois países têm usado os imigrantes como moeda de vingança entre si na disputa da Belorússia, aliada da Rússia, com o Ocidente. Em Zona de Exclusão (Zielona granica), temos uma família síria e uma professora de inglês vinda do Afeganistão que aspiram pedir asilo na Polônia ou chegar à Suécia em fins de 2021.

Assistir ao filme, de duas horas e meia, é uma experiência dilacerante, mesmo porque Zona de Exclusão é muito eficaz na encenação de uma saga dolorosa, com muitas perdas humanas, fome, sede, desabrigo e sacrifícios físicos. Os pobres coitados são forçados a ir e voltar entre os territórios polonês e belorusso, enquanto ativistas e socorristas humanitários tentam ajudá-los nos limites estreitos possíveis e arriscando suas próprias vidas.

O drama envolve ainda uma psiquiatra que se junta aos ativistas e um guarda de fronteira que entra em crise de consciência. Existe uma dose de maniqueísmo no retrato dos guardas poloneses, quase todos sádicos e desumanos contra os que chamam de “turistas”, e os personagens positivos que ficam do lado dos refugiados. Perto do final, o som do hip hop sinaliza um potencial de união entre jovens de origens e sortes distintas.

Um epílogo expande o quadro para os refugiados ucranianos que, já em 2022, no início da guerra da Ucrânia, são bem recebidos na Polônia. O contraste revela a discriminação étnica que costuma pautar a relação da UE com os refugiados. Com esse filme, a veterana Agniezka Holland (Filhos da Guerra, Olivier Olivier, O Jardim Secreto) reafirma sua posição de cronista das dores de uma Europa em permanente conflagração.

>> Zona de Exclusão está nos cinemas.

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