Haddad, o quase presidente

PARTIDO

A discrição pessoal, o comedimento elegante e o desapego ao cultivo de uma imagem pública fazem de Fernando Haddad um personagem desafiante para um filme. Partido enfrenta-o, colocando o atual Ministro da Fazenda como fio condutor num processo que se estendeu por quatro longos anos.

Essa coprodução com o Uruguai começa com as reações de Haddad à prisão de Lula em 2018, seu lançamento como vice e a invalidação da candidatura de Lula à presidência naquele ano. Prossegue com a campanha em que Haddad assumiu o lugar de candidato e o revés perante a extrema-direita. Conclui-se com a volta de Lula ao Planalto em 2023.

Já em 2018, Haddad previa a ascensão do neofascismo no mundo, objeto de sua  perplexidade. Ele tem razão ao dizer que nem toda derrota eleitoral é uma derrota política. E foi justamente a vitória de Lula em 2022 que afastou de Partido uma teleologia do fracasso. O filme nos leva de volta àquele período em companhia desse professor de fala mansa e hábitos frugais. Vemos Haddad em casa, cercado pelo carinho da família e de seus cachorros, tocando violão ou se preparando para os compromissos de campanha. Nos comícios e reuniões, ele visivelmente se esforça para fugir um pouco da imagem do intelectual refinado que vestia a camisa do Lula popular.

A imprensa neoliberal contribuía para tachá-lo de “preposto” e “poste” de Lula. Surpreende, então, a firmeza com que Haddad questiona os jornalistas que, àquela altura, pouco se importavam em prezar pela democracia. “Acordem!”, ele clamava. Quando se confirmou a eleição de Bolsonaro, Haddad ouve-o dizer na TV que “temos tudo para sermos (sic) uma grande nação” e comenta, na bucha: “Menos um presidente”.

Embora flagre alguns momentos definidores sobre a personalidade do homem e sua dificuldade (admitamos) em se vender como alternativa, o documentário de Sebastián Bednarik, Joaquim Castro e César Charlone se ressente de uma fragmentação excessiva. No intuito de desenhar o contexto, acaba não estabelecendo um foco mais consistente para o personagem, nem uma marca cinematográfica mais sólida. Compare-se, por exemplo, o caráter de “resumão” desse filme ao enfoque mais concentrado e singular dos filmes observacionais de Maria Augusta Ramos.

Na cobertura do papel meio shakespeareano que Haddad teve que desempenhar em 2018, faltou colher uma passagem crucial: a decisão de fazer dele o candidato substituto e a forma como ele aceitou esse papel. Descontada, ainda, uma captação de som às vezes precária, Partido vale como mais um documento daquele tempo triste e como esboço de retrato de um brasileiro que nos orgulha. Só o título permanece uma incógnita.

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