A FILHA DO PESCADOR + uma nota sobre CARTA A UN VIEJO MASTER
O drama da aceitação entre pais e filhos ganha uma versão extrema em A Filha do Pescador (La Estrategia del Mero). Dois mundos em colisão é o que acontece quando o solitário pescador Samuel (Roamir Pineda) vê chegar a sua porta o filho que partira com a mãe havia muitos anos. Samuelito agora é Priscila (Nathalia Rincón), prostituta trans em fuga de uma complicação na cidade colombiana de Santa Marta.
Samuel já foi festejado como o último praticante da pesca submarina com arpão e sem auxílio respiratório. Um de seus mergulhos para arpoar um mero tira o nosso fòlego já no início do filme. Ele é mais um dos pescadores rústicos e naturalmente transfóbicos que habitam aquela área do litoral colombiano. Priscila se mantém escondida enquanto pode, tendo que driblar a rejeição feroz do pai.
O diretor estreante Edgar Deluque Jácome, também responsável pelo roteiro, modula com muita perícia essa história a princípio simples, mas que evolui dramaticamente para tocar na relação entre transfobia e hipocrisia, assim como entre repúdio e solidariedade, orgulho e necessidade. Os atores, apesar da pouca experiência, estão plenamente convincentes. A fotografia de Rafael Gonzalez é quase sempre primorosa, tirando muita beleza de um cenário litorâneo quase intocado.
A coprodução entre Colômbia, República Dominicana, Porto Rico e Brasil absorveu brasileiros em várias funções técnicas, como Karen Akerman e Ricardo Pretti na montagem, Ricardo Cutz no som e a dupla Pedro Sodré e Rudah Guedes na bonita trilha musical. O resultado final é harmônico e delicado.
O título original talvez queira remeter a A Estratégia da Aranha, o filme de Bertolucci inspirado em Borges no qual um filho volta à aldeia natal para um acerto de contas com a imagem heroica do pai, que também tinha o seu nome. Priscila tem outros propósitos, é claro, mas, como o mero, também fica sob a mira do arpão do pai.
>> A Filha do Pescador está nos cinemas.
Carta a un Viejo Master
O centro cultural Futuros – Arte e Tecnologia (antigo Oi Futuro Flamengo) está com uma exposição de obras realizadas no âmbito da residência artísitca Lab Cinema Expandido, realizada ano passado no MAM-Rio. Entre elas, o longa-metragem Carta a un Viejo Master, no qual a diretora paraguaia Paz Encina (Hamaca Paraguaia, Ejercicios de Memoria, EAMI) se dirige ao “velho mestre” Eduardo Coutinho. Paz foi ao Edifício Master, em Copacabana, para recolher ecos do filme de Coutinho e saber sobre os personagens.
A visita, rápida e cheia de restrições impostas pela administração do prédio, acabou sendo mais uma reflexão da cineasta sobre presença e ausência, memória e desaparecimento. A cada personagem ausente (porque morreu ou se mudou) ou casal que se separou corresponde uma tomada fixa de algum ponto do edifício: corredores, áreas comuns, maçanetas, apartamentos em obras, detalhes de mobiliário e decoração. De certa forma, lembram os “planos vazios” que Coutinho construiu em alguns filmes de conversa.
À exceção de um breve encontro com uma única moradora, Paz Encina conversa apenas consigo mesma. Recorda eventos de sua vida e associa sentimentos seus aos que evoca de alguns antigos moradores do Master. A carta a Coutinho é, ao mesmo tempo, um ato de adoração, uma busca de similaridades e uma auto-análise. A voz de Paz soa no mesmo ritmo desacelerado e meditativo da montagem de Jordana Berg, sua parceira e elo com o cinema de Coutinho.
>> Carta a um Viejo Master está em looping no Futuros até 1/9.


