A ebulição de Copacabana e a reclusão dos mosteiros

Notas sobre os documentários FAUSTO FAWCETT NA CABEÇA e VOTOS

Um ego dissolvido na matéria em movimento

No princípio era uma ficção chamada “Copacabana Hong Kong”. Roberto Berliner, que ia dirigi-la, acabou produzindo o documentário Fausto Fawcett na Cabeça, de Victor Lopes. Não dá para imaginar a diferença entre os dois projetos, mas é certo que esta imersão no jeito de ser e de pensar de Fausto Borel Cardoso é um tiro no centro do alvo. Lá está o bardo de Copacabana em toda a sua verve imaginativa, delirante e iconoclasta.

As conexões pós-tropicalistas entre “fricção científica”, pornografia, misticismo e referências pop moldaram sua imagem desde os anos 1980. O filme recupera cenas preciosas de shows e clipes dos Robôs Efêmeros, Kátia Flávia, Santa Clara Poltergeist e o império de louras instalado por Fausto a partir da fixação na pantera Farrah Fawcett, que lhe rendeu o pseudônimo. Ele foi um precursor do hip hop com seu rock martelado e suas letras narrativas e meio declamadas. As parcerias com Fernanda Abreu, José Thomaz Brum, Sérgio Mekler, Deborah Colker e a performer Aleta Valente (que participou de Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho) são revividas pelos próprios e próprias.

Copacabana, esse “supergueto capitalista” que Fausto nunca abandonou, é o cenário de novas andanças pelos becos da memória. Dali brotaram as “crônicas exacerbadas” e a mitologia que ele cultiva com um amor que talvez não dedique a nenhum ser humano em especial. Mas “ninguém escapa ao amor”, admite, da janela solitária de seu apartamento na Rua Barata Ribeiro. O prédio do ex-futuro Museu da Imagem e do Som, em sua obra inacabável na Avenida Atlântica, posa como palco de um novo pocket show.

Decidido a mergulhar fundo na cabeça de Fausto – “ meu ego dissolvido na matéria em movimento” –, Victor Lopes lançou mão de um arsenal de efeitos e sintaxes visuais. A tela se reparte em mosaicos, o rosto de Fausto é deformado por espelhos, projeções cintilam sobre ruas e edifícios. O ruído visual é buscado deliberadamente para dar conta de uma imaginação fértil em sinapses demolidoras.

O mural de referências visuais que Fausto montou numa parede serve de roteiro para fazer fluírem lembranças, textos e considerações sobre a contemporaneidade. Fausto cruza todas as bordas entre o erudito e o popular. Seus livros são irreflexões vertiginosas a respeito do caos urbano e da potência dos instintos. Mas em Copacabana ele pode ser reconhecido e ter seus personagens citados por homens simples de um boteco.

A vertente muito masculina e eminentemente branca de sua obra pode estar hoje na mira do politicamente correto. Ninguém fala disso no filme, mas muito do que ele criou nas últimas décadas continua atual e provocante.

>> Fausto Fawcett na Cabeça está nos cinemas.

Vozes da clausura

Em vários momentos do documentário Votos, um corte brusco separa a movimentação intensa e o burburinho das cidades de São Paulo e Rio do silêncio de um mosteiro. É a forma como Ângela Patrícia Reiniger tenta sugerir o contraste entre “o mundo lá fora” e a vida monástica que, ainda hoje, muitos jovens decidem abraçar. A ideia de “morrer para o mundo” e dedicar o resto de suas vidas a praticar o recolhimento religioso, o desapego, a obediência, a castidade e a estabilidade pode soar para muita gente como coisa medieval.

Mas não para os noviços, monges, monjas e abadessas retratadas no filme. Eles e elas optaram por “doar” sua juventude e fazer do mosteiro o seu mundo. “Não abdicamos de ser mães”, diz uma delas, “pois temos a opção da maternidade espiritual”. Ou seja, podem encarar qualquer pessoa como filha.

Há 24 anos José Joffily fez O Chamado de Deus, em que interrogava jovens sobre sua decisão de seguir a vida religiosa. Era um filme rico em contradições e tentava discutir o Brasil através de distintas interpretações do apelo católico. Votos é bem mais modesto do que isso. Não enfoca o sacerdócio puro e simples, aquele envolvido com a sociedade, mas o dos monges enclausurados, que vivem para si e para Deus, numa espécie de comunidade de solidões. Em mosteiros ricos e confortáveis, vale dizer.

A curiosidade da diretora não foi suficiente para questionar o desafio mais crucial da vida monástica, que é o dever da castidade. Fala-se muito na dificuldade de praticar a obediência, mas não se toca na questão do amor e dos desejos humanos. A sensação é de que o filme evitou a esfera mais delicada. Acabou ficando relativamente superficial.

Há, porém, o acesso privilegiado às clausuras do Mosteiro de São Bento, no Rio, e de dois similares paulistas, espaços muito raramente franqueados a olhos alheios. A equipe também foi autorizada a registrar duas cerimônias de votos perpétuos e entrevistar monges e monjas. Não deixam de ser razoáveis privilégios para o documentário.

Outro aspecto curioso de Votos é a visão dos que desistiram antes do comprometimento definitivo. Um deles chegou a ser entrevistado ainda enquanto noviço, pleno de certezas, e depois de trocar o mosteiro pela vida laica. É interessante ouvi-los, mas, ao mesmo tempo, o seu exemplo levanta uma ponta da cortina sobre tudo o que encerra a tal vida monástica e que o filme não foi capaz de aprofundar.

>> Votos está nos cinemas.

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