A Amazônia em destaque no Filmambiente

O Festival Filmambiente (22 a 30 de agosto) está chegando a sua 13ª edição com algumas novidades. A começar pela criação de uma mostra competitiva de longas-metragens brasileiros, com seis concorrentes. Sobre um deles eu já escrevi aqui no blog: Utopia Tropical, brilhante encontro entre Noam Chomsky e Celso Amorim para discutir a história e o destino do nosso continente. Mais abaixo comento Amazônia, a Nova Minamata? e Não Haverá Mais História sem Nós. A competição se completa com Rua Aurora, Refúgio de Todos os Mundos, de Camilo Cavalcante, Escute: a Terra Foi Rasgada, de Cassandra Mello e Fred Rahal, e De Longe Toda Terra é Azul, de Neto Borges.

Cinco filmes competem na categoria Longa Internacional; 19 na competição de Curtas. A mostra Pela Natureza apresentará 11 filmes; seis outros estarão na mostra Racismo Ambiental e cinco na mostra Panorama. Três longas de ficção serão exibidos no encerramento. Além dos 55 filmes competitivos, outros três títulos serão apresentados exclusivamente no programa para escolas.

Ao circuito carioca (Cinesystem Botafogo – ex-Espaço Itaú – e Centro Cultural da Justiça Federal) se junta agora o Cine Arte UFF, em Niterói. Toda a programação estará disponível também online para todo o Brasil. Mais informações no site do evento.

A tragédia silenciosa do mercúrio

Jorge Bodanzky volta a patentear sua tarimba na documentação de assuntos amazônicos com Amazônia, a Nova Minamata?, filme-alerta sobre uma catástrofe humanitária que ameaça a população indígena, mas não só ela. É com um misto de delicadeza e firmeza que ele se aproxima do povo Munduruku na região do rio Tapajós, no Pará, a fim de denunciar a progressiva contaminação dos rios por mercúrio.

O assunto já havia sido ventilado em relação aos yanomami em A Última Floresta, de Luiz Bolognesi. O mercúrio é um dos metais pesados usados na coleta de ouro nos garimpos. Não detectável à vista, nem ao sabor, contamina as águas e os peixes, assim penetrando no corpo humano. O resultado da intoxicação mercurial afeta os vivos e os ainda por nascer, gerando gravíssimos distúrbios neurológicos e neuropsicomotores por várias gerações.

A tragédia de Minamata, no Japão do século passado, aparece como um flash forward do que pode estar acontecendo no Brasil. Lá o mercúrio utilizado pela fábrica de plásticos Chisso causou sérias deformações na população, o que ficou conhecido como o Mal de Minamata: corpos flácidos, membros torcidos, incapacidade de se expressar por qualquer sentido, paralisia e até morte. As imagens de arquivo recolhidas por Bodanzky, somadas às entrevistas feitas agora com sobreviventes japoneses, se assemelham ao que já se vê em crianças mundurukus.

O cenário tem implicações políticas de primeira ordem. Muitos indígenas se bandearam para o lado do garimpo ilegal em troca de dinheiro. Criou-se uma “oposição” pró-garimpo dentro da nação Munduruku, estimulada pelos proprietários e pela conivência do governo Bolsonaro. No filme, assistimos ao momento em que o neurologista Erik Jennings é interceptado, ameaçado de decapitação e tem seu avião depredado para que não complete o serviço de saúde que vinha desenvolvendo com os mundurukus. Em Jacareacanga (PA), os conflitos entre garimpeiros e a Polícia Federal chegam à beira da guerra civil.

O ouro extraído de terras originalmente indígenas é exportado com taxação mínima, expondo mais uma face da desordem típica do extrativismo no Brasil. Contra isso se empenham as lideranças das diversas aldeias da região na defesa do seu território e de um trato menos destrutivo da Natureza.

Bodanzky faz um trabalho de mestre ao ouvir caciques, ativistas indígenas, cientistas da Fiocruz em pesquisa na região, um dono de garimpo, agentes da PF e do Ministério Público. O uso farto de imagens aéreas comprova diretamente os estragos produzidos na floresta e nos rios. As tomadas grandiosas se conjugam harmoniosamente com flashes mais íntimos da vida nas aldeias, numa abordagem penetrante sem parecer invasiva.

Mesmo quando trata de uma “tragédia silenciosa” como esta, o diretor de Iracema, uma Transa Amazônica não abre mão de expor a beleza da região. Uma beleza que também está sob ameaça pela ação criminosa do mercúrio.

Classificar para submeter e saquear

Imagens assustadoras da devastação da floresta amazônica pontuam também o filme-ensaio Não Haverá Mais História sem Nós, de Priscilla Brasil e Raphael Uchoa, escolhido por Suzana Amado, diretora do festival, para ser exibido na abertura do evento. A abordagem aqui é pretensamente autóctone, já que o narrador se coloca como um amazônida em busca de entender as origens de um pensamento nefasto sobre sua região.

O filme se inicia com um aviso aos navegantes: “Este documentário não é entretenimento. É um manifesto”. A certo ponto, os realizadores inserem questionamentos alheios a sua postura durante o processo de realização. Algumas dessas críticas podem até ser compartilhadas pelo espectador. Afinal, o manifesto assume um discurso decolonial fechado na forma de tese. No fundo, é um grande texto oralizado e ilustrado por imagens poderosas.

Não fica muito clara a instância de enunciação, mas suponho que sejam Priscilla e Raphael. Eles tentaram consultar e filmar o acervo coletado no Brasil pelos viajantes alemães Carl Friedrich Philipp von Martius e a princesa Teresa da Baviera na época colonial. Os museus de Munique, porém, não franquearam o acesso. A indignação dos pesquisadores é combustível para esse libelo contra a apropriação de bens naturais – inclusive de seres humanos – para exposição na Europa. Nesse sentido, o filme se soma ao menos incisivo, embora mais consequente, O Tesouro Natterer, vencedor do último É Tudo Verdade.

Não Haverá mais História sem Nós remonta a Nietzsche, Wagner e aos tempos em que pensadores alemães ajudaram a formar uma ideia hierarquizante das raças, situando os não brancos em posições inferiores biológica e culturalmente. O filme sustenta a tese de que a classificação de pessoas, assim como de animais e plantas, se prestou a justificar o saque e a exploração de negros e indígenas, cujos saberes iam sendo sequestrados e apagados. Fundava-se um discurso sobre o Brasil e especificmente sobre a Amazônia como manancial a ser explorado indiscriminadamente. O assunto foi bem estudado por João Moreira Salles no livro Arrabalde.

Entre Munique e a Amazônia, o filme constrói uma permanente dialética entre texto e imagens, que ora se ilustram, ora se ironizam mutuamente. Invisíveis na tela, os realizadores se lançam na contramão das viagens colonialistas e filmam a Alemanha com olhar crítico. Não poupam acusações ao sentimento histórico de superioridade e posse dos europeus, que hoje, com a imigração, ainda se recusariam a admitir que não são mais apenas brancos.

Nessa investida crítica, causa surpresa o uso massivo e solenizante de música clássica europeia, que só nos minutos finais cede lugar a Villa Lobos. O uso de voz over desencarnada, embora situada como autóctone, se mostra um tanto impositivo, como na “voz de Deus” dos documentários tradicionais. Também o uso frequente de filmagens aéreas totalizantes, ao mesmo tempo que expõe a degradação da mata, institui um certo discurso de poder cinematográfico que problematiza a perspectiva crítica ao poder.

São questões que me ocorreram enquanto via o filme, mas não invalidam o seu empenho intelectual em encontrar uma voz de reivindicação dos direitos amazônicos. Além de um manifesto, temos aqui um exercício inteligente e estimulante de criação no campo do filme-ensaio.

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