Notas sobre os filmes A VIÚVA CLIQUOT e BAILE DAS LOUCAS, em exibição nos cinemas
Mercodrama de terroir indistinto
Nem a arrogância dos machos, nem o bloqueio de Napoleão Bonaparte foram capazes de deter a veia empreendedora de Barbe-Nicole Ponsardin. Após a morte do marido François Cliquot, a viúva de 27 anos venceu todas as resistências para prosseguir na administração de seus vinhedos na região da Champagne, no início do século XIX. Veuve Cliquot é hoje uma das marcas mais célebres de champanhe.
Sua história ganha as telas com perfume feminista. Usando de determinação e apelo emocional, uma mulher se impunha como empresária num tempo em que isso era até proibido por lei. Resiste às pressões para vender os vinhedos e supera os fracassos iniciais para alcançar o pleno sucesso mais adiante, isto é, depois do período coberto pelo filme.
A Viúva Cliquot (Widow Cliquot) é mais um exemplar do gênero que chamo de mercodrama. A gênese de um marco da indústria mundial é dramatizada como fruto de paixão e obsessão pessoal. Mira-se uma certa poética dos negócios, em que o produto industrial adquire um toque artesanal através da relação íntima entre o empresário e seu material. Nesse caso, as uvas e a alquimia dos vinhos são manipuladas pessoalmente por Barbe-Nicole, como joias que ela cinzelasse manualmente.
No mais, trata-se de mitificar o passado por meio de uma encenação empertigada, como se todos se comportassem impecavelmente na superfície. O filme é uma produção de terroir indistinto, com capital e estrela (Haley Bennet) estadunidenses, falada em inglês, filmada na França com diretor (Thomas Napper) e atores britânicos. Resulta um produto sem muito sabor, que fica ainda mais insosso nos flashbacks melosos da vida conjugal de Barbe e François.
Uma estranha no ninho
O romance histórico Le Bal des Folles,de Victoria Mas, já havia sido levado às telas em 2021 com o título de O Baile da Loucas. Essa nova versão (Captives no original) parte da mesma história, baseada em fatos do final do século XIX na França, mas envereda pela ficção absoluta. Tudo se passa no manicômio feminino de La Salpêtrière, onde muitas internas foram parar por imposição de parentes. Como, aliás, no caso recentemente retratado em Ninguém Sai Vivo Daqui, no infame hospício de Barbacena (MG).
Fanni Devander lá se interna voluntariamente para descobrir o que foi feito de sua mãe, recolhida havia 29 anos. Fanni é uma estranha no ninho onde as mulheres são oprimidas, torturadas e têm seus filhos sequestrados. Ela é posta a serviço de uma professora de música que prepara as “loucas” para um baile à fantasia anual. Nessas ocasiões, elas são expostas como atração exótica à alta sociedade parisiense.
A trama construída pelo diretor Arnaud des Pallières e sua corroteirista Christelle Berthevas procura mesclar uma visão documental daquele quadro de mulheres maltratadas por outras mulheres (os homens estão à sombra manipulando os cordões) e um thriller de fuga. A receita, porém, desanda muito cedo. As motivações e intenções de Fanni são confusas, e as demais personagens importantes carecem de definição. O baile, anunciado como ápice da narrativa, resulta embaralhado e frustrante.
As coisas só não naufragam completamente devido à qualidade do elenco, que inclui Mélanie Thierry, Josiane Balasko, Yolande Moreau, Marina Foïs e Carole Bouquet. Além de um plantel de rostos e corpos peculiares nos papéis das internas.
Afora a barafunda do roteiro, a encenação não ajuda muito a tornar as coisas palatáveis. O excesso de closes, a desorientação provocada pelos movimentos incessantes de câmera e a montagem alvoroçada pretendem reproduzir a claustrofobia e as tensões do ambiente, mas tudo o que fazem é dar vazão a um barroquismo enfadonho.


