AINDA ESTOU AQUI
O desaparecimento, tortura e morte do engenheiro, jornalista e ex-deputado Rubens Paiva (1929-1971) foi um dos episódios mais sórdidos da ditadura civil-militar instituída no Brasil em 1964. Sete anos depois do golpe e de ser cassado, Rubens foi levado de sua casa por meganhas da Aeronáutica e morreu um ou dois dias depois no Destacamento de Operações de Informações (DOI) do I Exército, no Rio de Janeiro. Por 43 anos o estado brasileiro negou tê-lo prendido, dando-o como desaparecido. Só em 1996 sua família obteve o certificado de óbito. O reconhecimento do assassinato só se deu com a Comissão da Verdade em 2014.
O impacto desses fatos sobre o resto da família Paiva foi objeto do livro Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, um dos cinco filhos de Rubens. O título refere-se à frase que a viúva Eunice Paiva parecia murmurar quando já abatida pela Alzheimer. Antes disso, porém, ela foi descrita pelo filho como a grande heroína da família. É da sua perspectiva que se constroem o livro de Marcelo e o filme de Walter Salles.
Em torno de Eunice (Fernanda Torres) se organiza o grupo familiar no primeiro ato do filme. Assistimos a uma convivência harmoniosa e feliz num casarão da orla da Zona Sul carioca, apesar da tensão política em tempos de sequestro de embaixadores estrangeiros por ativistas da luta armada. Rubens (Selton Mello) se ocupa dos seus trabalhos de engenharia enquanto, clandestinamente, ajuda como pode os exilados políticos. Ele próprio tinha se exilado por quase um ano.
O roteiro de Murilo Hauser, Heitor Lorega e Marcelo Rubens Paiva, premiado no Festival de Veneza, demora-se na caracterização da família em 1971: o cachorrinho recém-chegado, as refeições, o jogo de totó, os filmes domésticos mostrados ao som de canções da época, a partida de Vera (Valentina Herszage), a filha mais velha, para estudar em Londres, a queda do dente de leite da mais nova…
Tudo isso nos prepara para o choque da invasão da casa pelos agentes da ditadura. Uma presença sinistra que parece invadir o cinema em que estamos e roubar nossa alegria. Eunice é presa e interrogada por 12 dias enquanto tenta descobrir o paradeiro do marido. A essa altura já estamos tão envolvidos com os Paiva que sentimos o horror nos nervos. É fruto não só da precisão do roteiro (veja-se a forma como é mostrado o retrato de Garrastazu Médici), mas também da sensibilidade de Walter Salles em conduzir os atores e a câmera pelos diversos cenários. Os diálogos naturalistas são ditos de maneira humana, intercalada e descontínua, e não como textos lidos de alguma folha de papel.
Alguns arcabouços formais se destacam. Um deles são as três fotos de família tiradas em épocas diferentes, quando o sorriso de Eunice dá o tom da dignidade e da fibra com que ela vive as situações, o que parece contagiar os demais. Outro é a batalha íntima de Eunice para poupar os filhos da verdade sobre o pai – ou pelo menos adiar sua revelação. Em contrapartida, temos o jogo com as percepções das crianças: o que ignoram e o que deduzem ou descobrem, numa linha tênue entre a inocência e a dura consciência. Mesmo para Eunice, que desconhecia a ação clandestina do marido, há uma passagem da singeleza para a assertividade. Tempos depois, ela se formaria em direito e atuaria em defesa das terras indígenas.
Fernanda Torres está extraordinária, sem dúvida, mas sua atuação se beneficia de tudo o que está ao redor: a excelência na condução de todo o elenco, a vivência da casa e sua tocante despedida, o sentimento de época tão bem evocado nas imagens e nos sons. Talvez haja uma certa funcionalidade nas cenas de 1996 e 2014 que alongam um pouco a duração. Mas isso acaba compensado pela magnífica atuação silenciosa de Fernanda Montenegro em sua curta participação como Eunice aos 82 anos, acometida de Alzheimer.
Cabe registrar que este é mais um filme de Walter Salles em que a estrutura familiar se abala por fatores externos. Assim são Terra Estrangeira e Abril Despedaçado. É também mais um filme marcado pela ausência do pai, como Central do Brasil, Terra Estrangeira, Linha de Passe e o curta Quando a Terra Treme. José Carlos Avellar elaborou sobre isso no seu livro Pai país, mãe pátria, sustentando que a procura do pai poderia significar a procura de um país.
Ainda Estou Aqui será nosso candidato a uma indicação para o Oscar de filme estrangeiro. Chega credenciado pelo sucesso em Veneza e por alguns prêmios em festivais e eleições de críticos estrangeiros. Suas qualidades de realização só são superadas pela importância que tem para nós ao dimensionar o mal que o fascismo provocou na sociedade brasileira. Um alerta para os tempos que vivemos, de democracia fragilizada e fantasmas autoritários por todo canto. A busca de Eunice Paiva pela verdade e seu cuidado com a família são uma saga que merece respeito e admiração.



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Parabens pela sua critica ! Vi o filme em Venezia ! Otimo de ter lembrado o Avellar e seu livro. Saudades e abraços,
Sylvie
Merci, chérie.
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Texto excelente como de costume. Estava ansioso por sua publicação. (Sobretudo depois da crítica negativa de Inácio Araújo na Folha.) De qualquer forma fiquei com a impressão de que o seu cuidadoso texto não demonstra grande entusiasmo pelo filme propriamente dito, o que seria coerente com outras críticas, como a do Plano Crítico, que apontaram problemas significativos na produção. Seria mais um caso de Oscar bait?
Olá, xará, não sei como medir entusiasmo por um texto como o meu. A sobriedade do filme e o seu tema não requerem manifestações mais expansivas além do que fiz: reconhecer sua qualidade e importância, além de atribuir-lhe a cotação máxima da minha apreciação.