Que os ecos de um Brasil escravocrata se perpetuam até hoje, seja nas relações de classe, seja no racismo estrutural, é algo mais que conhecido e consensual. Mas essas evidências costumam ficar camufladas na retórica um tanto repetitiva dos discursos sociológicos e, com isso, se perdem na invisibilidade.
Com o filme-ensaio Paraíso, Ana Rieper quer tornar essa constatação visível e audível. Pela justaposição de materiais de arquivo, anúncios da época da ditadura, registros brutos contemporâneos e algumas entrevistas recentes, Ana expõe as entranhas de um Brasil violento, conservador e racista.
O filme se apresenta como uma colagem, o que o exime de uma estrutura mais coesa. Às vezes chega a ser caótica a forma como a montagem de Pedro Bronz organiza materiais tão diversos. Cenas de violência rural, urbana e doméstica se entremeiam com imagens de um cotidiano supostamente neutro, offs de textos colonialistas e vozes de políticos de extrema-direita. Aqui e ali, a edição apela ao sampleamento, como no trecho que desconstrói uma fala de Ronaldo Caiado. O efeito pode ser irônico ou mesmo estarrecedor.
Uma dialética veloz entre textos e imagens se estabelece desde o início, com Elisa Lucinda emprestando sua voz para as citações mais ultrajantes. Não menos cafajestes são as falácias de congressistas ultraconservadores em defesa da “família natural” e da mulher como senhora do lar. As pregações das igrejas evangélicas aparecem como alimentadoras dos conceitos retrógrados que hoje perpetuam uma ordem colonial no seio da sociedade moderna.
O roubo de terras indígenas e as histórias de exploração sexual de escravas e empregadas domésticas são fatos por demais conhecidos, pode-se pensar. O que Paraíso propõe não é uma revelação em primeira mão, mas uma articulação do pensamento histórico com a realidade atual. Conexões que nos ajudam a entender como o país se mantém arcaico em muitos aspectos, arrastado pelas forças do atraso.
>> Paraíso estreia no Canal Curta hoje 28/11 às 21h30 no canal Curta!, com reprises dia 29/11 à 01h30 e às 16h30; dia 30/11 às 22h; dia 1/12 às 15h30; e dia 2/12 às 09h30.

