SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA
Uma série de filmes estadunidenses recentes, todos produzidos pela Netflix ou contaminados pelo estilo Netflix, têm girado em torno de personagens autocentrados, cheios de problemas pessoais, cujos dramas se desenrolam pela verborragia exasperada com passagens pelo delírio ou a loucura. O mediano Morra, Amor e o ótimo Sorry, Baby se encaixam nesse modelo. São filmes sobre questões individuais que nada dizem sobre o resto da sociedade ou o estado do mundo.
Incluo nesse time o exasperante Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You). A pobre criatura da vez é uma psicoterapeuta submetida a um roldão de crises simultâneas. Linda (Rose Byrne) está à beira de um colapso nervoso porque precisa cumprir uma meta em relação à filha doente que vive presa a uma sonda. O marido está distante e não se dispõe a ajudá-la. O teto desaba e deixa seu apartamento inundado. Uma de suas pacientes desaparece deixando um problemão em seus braços. Ela própria não se entende mais com o seu psicanalista, um colega de consultório. E frequentar um programa de ajuda a mães culpadas não está sendo de muita valia.
A atuação de Rose Byrne tem sido muito festejada e premiada, não sem alguma razão. Mas o papel de uma mulher contra quem o mundo inteiro parece conspirar só ajuda a fazer a personagem irritante, oscilando sempre entre a raiva e o desespero. Ainda por cima, a atriz faz questão de sublinhar cada nota de agonia. Por mais diferentes que sejam os transtornos sucessivos, a direção e o roteiro de Mary Bronstein não logram criar variações e curvas que tirem o filme do seu tom monocórdico.
Em estado de emergência constante, Linda e uma de suas pacientes, também mãe, se espelham mutuamente. Por sinal, o tema da maternidade tem sido tratado por vieses pouco róseos em filmes como Morra, Amor, O Castigo e Jovens Mães. Se Eu Tivesse Pernas… também lida com isso, embora de maneira confusa e canhestra. Linda não perde uma oportunidade de se descuidar da filha. Com tantos pepinos para resolver e com tantas “viagens” de baseado, é de espantar que ela não peça uma licença no trabalho de terapeuta.
Por um capricho, a meu ver, pouco justificável, a visão do corpo da menina doente é ocultada durante quase todo o filme, talvez para representar a alienação da mãe. Em compensação, a figura de um funcionário de hotel é ampliada sem muita função além de dar um toque supostamente cool a cargo do rapper A$AP Rocky.
Entre os artifícios para causar impacto, o filme ostenta um hamster sendo atropelado e uma retirada de sonda que parece ter saído de um episódio de Alien. Tudo isso a caminho de um final estapafúrdio. Se eu tivesse pernas, eu sairia do cinema.
>> Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria está nos cinemas.


concordo com voce.
Causa incomodo, é autocentrado. E a emoção é zero
Bom te ouvir