A GAROTA CANHOTA
Esse pequeno filme taiwanês vem encantando muita gente e chegou à short list do Oscar de filme estrangeiro. Chegou aí muito provavelmente pelo envolvimento de Sean Baker, o diretor de Anora, como coprodutor e corroteirista. Mas precisamos também registrar o contrário: a diretora Shih-Ching Tsou tem sido frequente colaboradora de Baker na produção de seus filmes (exceto Anora), daí que seus inputs criativos podem estar em títulos como os ótimos Tangerine, Projeto Flórida e Red Rocket.
O fato é que A Garota Canhota (Zuopiezi nuhai) tem um bocado em comum com os filmes de Baker: gravado com IPhones como Tangerine, calcado nas aventuras de crianças e adolescentes como Projeto Flórida e ambientado em áreas de comércio barato com Red Rocket. Falta, porém, o gume antropológico que convive com a comédia nos filmes do estadunidense.
Um certo conhecimento da cultura urbana taiwanesa talvez faça falta a um melhor entendimento dos detalhes de A Garota Canhota. Os mercados noturnos de Taipei são arrimos de sobrevivência e consumo de bugigangas e comida de rua. Num deles se instala a mãe solo Shu-Fen com sua filhinha canhota I-Jing. A outra filha, a adolescente I-Ann, por sua vez, é uma bīnláng xīshī, isto é, uma garota que vende a viciante noz de areca vestindo roupas provocantes em barracas de vidro fartamente iluminadas. A prática, correlata à prostituição, vem sendo combatida pela polícia de Taiwan.
Nesse cenário hipercolorido e barulhento, os três núcleos de ação representados por cada uma das três personagens se alternam velozmente conforme o ritmo imposto pela montagem, também assinada por Sean Baker. Por vezes, essa alternância parece remeter aos movimentos frenéticos do suricato de estimação de I-Jing.
A mãe se esfalfa para pagar o aluguel de uma barraca de macarrão e o tratamento do pai de I-Ann, mais um marido canalha entre tantos do cinema recente. A adolescente transa com o patrão casado e odeia o pai. A pequena I-Jing usa sua mão esquerda (a mão do diabo, segundo a superstição local) para fazer pequenos furtos. A avó, por seu turno, atua no tráfico de imigrantes com passaportes falsos para os EUA.
Apesar da energia colocada na encenação, da mirada esperta para as locações de Taipei e da espontaneidade das interpretações, o filme me pareceu bastante banal como construção dramática, uma espécie de sitcom familiar tolinha na maior parte do tempo. Uma sucessão de “barracos” leva ao “barracão” final numa típica festa de aniversário contaminada por uma revelação melodramática. Nada de grave que não resista à próxima tijela de macarrão.
>> A Garota Canhota está na Netflix.



