Latinices da Broadway

O BEIJO DA MULHER ARANHA

Depois de ser levado às telas por Hector Babenco em 1985 num trabalho indicado aos Oscars de filme, direção, roteiro adaptado e vencedor de melhor ator com William Hurt, o romance queer de Manuel Puig ganhou os palcos como musical em 1992, faturando vários Tony Awards. A peça chegou ao cinema pelas mãos de Bill Condon (Deuses e Monstros, Dreamgirls, A Bela e a Fera).

Em vários sentidos, o novo filme se afasta da versão de Babenco, e não só por ser um musical. Embora a relação entre o endurecido militante Valentin (Diego Luna) e o melífluo decorador de vitrines Molina (Tonatiuh) permaneça como no original de Puig, o entrecho fantasioso do filme narrado por Molina é bem diferente. Em lugar da estrela de cabaré Leni Lamaison, vivida por Sonia Braga e envolvida com os nazistas na época da II Guerra, temos agora Ingrid Luna, estrela latina cercada de machos em bailados saturados de Technicolor.

Esse O Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman) parcialmente filmado no Uruguai (cenas da prisão e exteriores) quer ser mais latino que o livro de Puig. O resultado não é dos melhores. Os números musicais de  John Kander e Fred Ebb receberam um tratamento pesado, que aspira à estética dos antigos musicais, mas estaciona mesmo é no kitsch. É louvável que algumas coreografias de Sergio Trujillo tenham sido captadas em longos planos sem corte, o que valoriza os dotes de Jennifer López e os esforços de Diego Luna e Tonatiuh. No entanto, a cafonice impera na combinação de uma estereotipia “latina” com os clichês da Broadway.

No âmbito da cela que dividem, nos estertores da ditadura argentina, Valentin e Molina vivem os contrastes entre a sisudez do ativista de esquerda padrão e os devaneios do gay prosaico de antigamente. As associações entre a vida na prisão e os filmes narrados por Molina criam um curioso jogo de personae. Assim é que, no musical imaginado, Diego Luna vive também o par romântico de Aurora, enquanto Tonatiuh acumula o papel de Kendall, assistente da diva e também apaixonado por ela.

Pode-se dizer que Tonatiuh, embora seja um ator mais limitado, está mais apto que William Hurt ao papel de Molina. Por conta dele, o personagem ganhou tinturas queer mais atualizadas. Mesmo assim, manteve a velha admiração por mulheres emperiquetadas e submissas. As contradições também afetam o ativista revolucionário quando se trata de examinar sua vida pessoal. A capitulação de Valentin depois de citar Marcuse (“Gênero é um construto social”) e seu crescente interesse pelo musical que odiava coroam a mensagem de Puig de que tudo depende da abertura de cada um para o afeto e a imaginação.

O filme de Bill Condon é, sem dúvida, bem intencionado. Tem o atrevimento (ou mau gosto?) de alternar um musical com elementos de tortura, fezes e envenenamento alimentar. Quanto à trama paralela da mulher aranha, parece estar ali apenas por obrigação, sem charme nem relevância.

>> O Beijo da Mulher Aranha está nos cinemas.     

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