Dois filmes de Carlos Adriano
Vertigem proustiana
Nunca talvez Carlos Adriano se tenha dado tanta liberdade para navegar pelos sulcos do mar da arte. Como avisa o título desse seu (apenas) segundo longa, trata-se de um caleidoscópio de citações literárias, visuais e musicais motivado pela trip temporal de Marcel Proust.
Assim como o ponto de partida de seu longa anterior, Santos Dumont: Pré-cineasta?, foi um raríssimo take de mutoscópio do inventor da aviação, descoberto pelo próprio Adriano, o detonador desse novo filme-ensaio foi o achado recente de um pesquisador canadense: a única captura de Proust em movimento, descendo lépido e fagueiro as escadarias de uma igreja por ocasião do casamento de uma amiga em 1904. Ele passa sozinho, de sobretudo cinza e chapéu. 
Essa imagem recorrente no filme é, como de costume chez Adriano, manipulada extensivamente, o que intensifica sua presença ao mesmo tempo que a desconstrói. Partindo desse “tempo reencontrado” num fragmento de cinema, o cinepoeta abre as asas e paira sobre o planeta semântico do tempo: memória, duração, acumulação, recuperação, saudade, vertigem, Vertigo.
Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas requer do espectador um misto de atenção e abandono ao prazer do fluxo. São muitos os textos na tela, seja de excertos de Proust, seja de ensaios sobre ele, somados ainda a citações de outros escritores. “Citações alheias são sempre mais interessantes do que as nossas próprias”, lê-se em dado momento. Manuscritos de Proust pontuam a viagem como pit stops.
Jean Cocteau dá as caras com um lindíssimo depoimento sobre Marcel, destacando as luvas que ele usava para não roer as unhas. Orson Welles, Yasujiro Ozu, Pier Paolo Pasolini e Jean-Luc Godard (influência maior deste opus) marcam presença com ponderações sobre o fazer artístico como marca de cada tempo. “A arte é o único meio de redescobrir o tempo perdido”, lemos mais adiante.
Jorge Luis Borges, Jean Genet, Lezama Lima e Carlos Drummond de Andrade são outros convivas de realce. O brasileiro Carlos Nader participa com uma reflexão oral sobre a figura do cineasta como “relacionador”, ou seja, um construtor de pontes entre coisas do mundo. Proust, contudo, não acreditava no potencial do cinema. Para ele, a “visão cinematográfica” estava longe de corresponder ao real. Ele julgava a nova arte incapaz de reproduzir a gramática literária. Curiosamente, os estudiosos apontariam protótipos de linguagem cinematográfica na escrita de Em Busca do Tempo Perdido.
O filme de Carlos Adriano é também uma recuperação do tempo do cinema. Do seu cinema – nos flashes rápidos de filmes seus – e do cinema em geral. Do primeiro cinema aos épicos primevos, às bacanais babilônicas, a Busby Berkeley de mil bananas, a Limite (lindamente musicado por Caetano), a Hitchcock na vertigem das espirais, e muito mais. Há mesmo uma ânsia de abarcar toda a memória do mundo nessa seleção vertiginosa de intensidades.
Adriano chega aqui a um refinamento admirável na junção de imagem e música, assim como no trabalho insano de pesquisa, edição, manipulação, reconfiguração e aproximação. O cinema para ele é como uma massa de modelar, coisa feita com a mão, curva a curva, detalhe a detalhe. Suas práticas evocam as vanguardas do começo do século XX, aditivadas por uma erudição ciclópica e um gosto lúdico (godardiano) pelo jogo de ideias.
Nesse gabinete de curiosidades e sortilégios audiovisuais-literários não poderiam faltar as menções ao genocídio dos palestinos, causa que vem mobilizando o realizador já em diversos curtas. A limpeza étnica e o massacre de Tantura pelos israelenses em 1948 irrompem no tecido mais intelectual do filme para tratar de um tempo histórico perversamente reencontrado na atualidade.
Mulas em abismo
Poeta querido de Carlos Adriano, citado no Proust Palimpsesto, o cubano José Lezama Lima (1910-1976) é o lume que guia o cineasta pelos caminhos muares do curta Sem Título # 11: Um Analecto À Mula. O poema Rapsódia para a Mula, de 1949, é um canto à “secreta paciência da mula”. O filme de Adriano é uma ode à sua presença surpreendentemente frequente no cinema.
Bresson, Eisenstein, Paradjanov, Kiarostami, Skolimowski, Pasolini e muitos outros escalaram as simpáticas mulinhas em seus filmes. Adriano cria uma estrutura em abismo onde as bichinhas se sucedem, culminando com a declamação do poema por Lezama Lima.
Dedicado ao falecido companheiro do cineasta, Bernardo Vorobow, o curta-analecto também acena a Cuba e a Gaza, vítimas da barbárie atual que sobre essas terras se acumula.





