Uma greve em discussão

PARADA GERAL no Vimeo

Em tempos de agentes secretos, é interessante assistir no Vimeo a um registro político precioso de 1975: o curta PARADA GERAL, realizado por estudantes da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP sobre a greve estudantil que parou aquela faculdade durante todo um semestre. Filmado em Super 8, com depoimentos em áudio paralelamente às imagens, o filme expõe a diversidade de opiniões dos próprios estudantes sobre a paralisação.

O jornalista e consultor político Gabriel Priolli era um dos grevistas e comentou ao ver o filme agora restaurado: “Importante registro da greve da ECA em 1975 e da repercussão que teve na USP. Houve uma disputa de sentido no movimento. Parte dos estudantes o entendia como uma ação localizada, pela deposição de um diretor autoritário [Manuel Nunes Dias]. Algo para se resolver na ECA e o mais rápido possível. Outra parte enxergava na greve o início de uma mobilização geral dos estudantes pela derrubada da ditadura. A luta deveria envolver a USP inteira e quem mais aderisse fora dela. As duas visões se confrontaram na escola e nas assembleias universitárias, que votaram a continuidade ou o fim da greve à medida em que o tempo passava e Nunes não caía. Venceu a segunda posição. A greve foi mantida por 6 meses, os estudantes da ECA perderam um semestre letivo, mas a luta democrática avançou. No ano seguinte foi recriado o DCE Livre da USP. Em 1977, os estudantes saíram às ruas em passeatas em todo o Brasil, e iniciaram o trabalho de refundação da UNE. Depois vieram as greves de trabalhadores, a anistia, a criação de novos partidos e a democratização do país acelerou, sem que nada pudesse pará-la.”

O cineasta Roberto Gervitz, então com 17 anos, também estava lá, realizando as filmagens junto com Sergio Toledo Segall e Hugo Lenzi. Ele comenta: “As coisas começavam a se mover lentamente no país, desde a vitória do MDB em 1974 e a crise do petróleo de 1973. Esse registro em 1975 e os posteriores “História dos Ganha-Pouco” (1976/77) e “Braços Cruzados, Máquinas Paradas” (1978/79) espelham e refletem essa progressão. E, claro, representam avanços no domínio da linguagem cinematográfica.”

>> PARADA GERAL está disponível aqui.

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