O enigma Morel-Marienbad

Marienbad

Um dos grandes enigmas intelectuais do século 20 é a relação entre o filme O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais, e a novela A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. O livro narra a angustiante investigação de um perseguido político acerca do que se passa na ilha onde se refugiou. Ele se apaixona por uma mulher que faz parte de um grupo de turistas e parece não vê-lo. Acaba descobrindo que os turistas são apenas imagens gravadas que vivem uma única semana, incessantemente repetida como num looping. Por fim, ele se faz gravar também, na esperança de penetrar no mundo paralelo da mulher amada.

O filme de Resnais mostra as tentativas de um homem no sentido de convencer uma mulher casada de que eles se encontraram um ano antes e ela prometera fugir com ele. O Ano Passado em Marienbad é a mais brilhante concepção cinematográfica do “talvez”: os personagens não estão certos do que dizem, os espectadores não estão seguros do que veem. Tudo são hipóteses, memórias inventadas, jogos de espelhos que se refletem e se contradizem. O amante de Marienbad pode ser também a personificação do wishful thinking, esse desejo de que a realidade corresponda aos nossos anseios.

Só agora li Morel e aproveitei para rever Marienbad. Existem traços de união entre as duas obras, mas nada óbvio ou à primeira vista.

Já foi dito que O Ano Passado em Marienbad é a “materialização” plena de A Invenção de Morel, até porque a tal invenção é uma espécie de supercinema, capaz de gravar imagens tridimensionais, sons, odores, memórias e pressentimentos. Ali estão os personagens encerrados num ciclo de repetições que aboliram o tempo linear. Os cenários do enorme hotel do filme podem ser um paralelo com o museu habitado pelos turistas do livro, junto às referências comuns a jardins. A semi-imobilidade marmórea dos atores sugere a morte, destino dos personagens do livro após terem sua vida gravada durante a semana fatídica.

O personagem “X” do filme pode corresponder a Morel, já que contracena com a mulher e o marido dela no mesmo plano dimensional. Mas, pelo caráter de protagonista apaixonado, pode corresponder também ao fugitivo. Nesse caso, a situação dramática se inverte, pois o fugitivo do livro, por ser o único vivo, passava inteiramente desapercebido. Visto assim, Marienbad seria uma espécie de continuação de Morel, retomando o personagem depois que ele se fez filmar e adentrou o mundo paralelo. Não sei se esta alternativa já foi estudada, mas me pareceu bastante razoável.

O estranho nisso tudo é que Marienbad não faz qualquer menção a Morel. Não há crédito para o livro, nem reconhecimento claro nas entrevistas de Resnais e do roteirista Alain Robbe-Grillet. Por conta disso, o roteiro já foi acusado de plágio ou aliviado como mera intertextualidade. Mas o cinema deixou pelo menos uma pista importante: a cidade-spa de Marienbad foi citada por Bioy Casares (à página 15 da edição brasileira Cosac Naify). E não seria demais registrar a rima entre a mulher do livro, Faustine, e a atriz Delphine Seyrig, que interpreta “A” no filme.

A Invenção de Morel, além disso, parece a matriz literária de uma série de experiências com as dimensões no cinema. E não só obras high brow como Marienbad, mas também rebentos pop como A Rosa Púrpura do Cairo (a porta aberta entre filme e realidade) e O Sexto Sentido (um morto passeia entre os vivos e é percebido por apenas um deles).

5 comentários sobre “O enigma Morel-Marienbad

  1. Pingback: A invenção do eterno retorno | Crab Log

  2. De fato, quando escrevi o comentário acima não havia percebido que havia continuação de seu texto; quando vi – e li, já havia escrito e enviado meu comentário.
    Acho sua hipótese uma interpretação pertinente, mas é mais uma, bem simpática, porém, como tantas outras existem: algumas menos pertinentes; outras, tanto quanto.
    O fato que eu conhecia, li alguma vez, não me pergunte onde, foi que quando o filme estreou em Veneza, um jornalista interpelou Resnais a respeito do livro e alguns pontos em comum, mas Resnais disse desconhecer o livrro do Casarés. O jornalista teria resumido o enredo para o diretor que, então, pelo resumo do jornalista, teria reconhecido uma forte aproximaação, ainda que não necessariamente explícita nem óbvia (como você mesmo escreveu).
    Não sei o que o Robbe-Grillet disse, nem se disse algo a respeito.
    Resnais e Robe-Grillet discordavam: Resnais achava que houve um encontro entre o homem e a mulher no ano anterior em Marienbad;
    mas Robbe-Grillet dizia que não, não houve.
    O bom do filme é sua polissemia. Tenho o DVD da Criterion: quem sabe tudo será explicado nos extras?????? Ainda não pude ver…
    Gostaria que tudo fosse coincidência, “sincronia” (junguiana, quem sabe?) Seria mais bonito, não acha? “Tudo que se eleva, converge” (Teillard de Chardin)

    Eu li o livro há séculos na primeira tradução brasileira chamada “A Máquina Fantástica” com a Anna Karina de costas na capa, só sabia que era ela porque davam crédito; era uma cena do filme (foi filmado por um italiano, acho que não pasou no Brasil); reli a novela nesta edição da Cosac & Naify logo que saiu mas não me chamou a atenção o que vc destacou na pág. 15. Embora eu soubesse das ilações de similitude entre o filme/roteiro e o livro.
    Podemos pensar que houve lapso de memória do Robbe-Grillet? Robbe-Grillet teria lido? E a escolha de “Marienbad” para o título do filme seria um “ato falho” que denunciaria a inspiração, ainda que “esquecida” (de fato, por recalque, como vc escreveu?)
    Podemos brincar e dizer que quando Casarés escreveu o livro ele já sabia que ia ser feito um filme como “Marienbad”, 20 anos depois – e que teria este título; e foi por isso que ele escreveu na pág. 15 “veranistas espalhados em Los Teques ou em Marienbad.”
    Um novo looping ! Viagem no tempo ! Por que não?
    E “Los Teques” onde é?
    Vou acabar escrevendo um roteiro genial onde um cara morre dizendo “Rosebud”, que tal?

  3. Adoro o livro e o filme. E recentemente descobriram que em um take de 4 segundos nos priemeiros 15 minutos de “Marienbad”, na penumbra, no canto direito de quem está olhando esta cena, há um sujeito com um perfil de barriga de Hitchcock – há quem diga que é o próprio. Seja ou não (acho que não é), a imagem seria “gratuita” ou misteriosa? Assim é se lhe parece, como tudo o mais no filme. “Morel” é mais amarrado como uma ficção científica algo filosófica, mas me impressiona ter sido lançado em 1940! e já antever imagens holográficas gravadas no passado e que parecem absolutamente reais no presente, em eterna repetição (eterno retorno, compulsão à repetição, decodifiquem como quiserem). Há algo sinistro nessa situação, tal como no “Retrato Oval” de Poe onde quanto mais a pintura ganha vida, mais a modelo a perde. As pessoas registradas virtualmente para a eternidade pela “invenção de Morel”, teriam suas vidas abreviadas (sugadas?) pelo que a máquina capta. A “invenção” seria o “cinema perfeito” como registro, mas mortal para os registrados… Muito sinistro mesmo!

    • Em termos “tecnológicos”, a invenção de Morel antecipa a realidade virtual, só que com consequências sinistras. Gallego, se você leu o post até o final, gostaria de saber o que acha da hipótese de o livro ser uma continuação do filme.

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