Rio das dores

Waldick

Quando o penetrante e um tanto melancólico documentário de Patricia Pillar passou no É Tudo Verdade de 2008, Waldick Soriano ainda lutava contra um câncer na próstata. Se não vendia saúde, tampouco parecia já negociar com a morte que o levaria em setembro. Waldick– Sempre no Meu Coração foi exibido no Canal Brasil e agora chega ao cinema como um tributo póstumo ao menestrel da dor de cotovelo e do macho-vítima.

Republico abaixo o bonito texto que  Carolina de Assis escreveu em março de 2008 para o DocBlog: 

Rio das dores

Waldick Soriano, “o Frank Sinatra brasileiro”, sustenta sua persona de caubói solitário, inspirada em Durango Kid, há quase 50 anos. Em Waldick, Sempre no meu Coração, Patrícia Pillar descontrói o personagem Waldick, grandioso e inflado por suas muitas mulheres e seu sucesso, e dá voz ao homem Eurípedes, frágil e cortado por uma vida de tristezas e solidão.

A câmera acompanha Eurípedes Waldick Soriano pelas estradas nas quais ele fez seu caminho e conheceu o Brasil. Em cada cidade que parava, Eurípedes procurava um cinema, sua outra paixão – depois das mulheres. Volta à terra natal, Caetités, no interior da Bahia, e revisita a lembrança do abandono da mãe, de uma infância e uma vida soltas no mundo, sem muito a que se apegar.

A aura de mistério imposta por Waldick vai aos poucos se dissipando e revelando o desamparo de Eurípedes. A equipe o acompanhou por mais de dois anos, e o que se vê é uma intimidade entre personagem e câmera às vezes incômoda, como na constrangedora cena em que Waldick e Walmick, pai e filho, discutem suas antigas diferenças.

A solidão, palavra de que ele não gosta, é sua única companheira em todos estes anos. “Mas a vida é isso”, diz Waldick. Amar, sofrer, sentir saudades de alguém. Este aspecto agridoce da vida dá o tom do documentário, divertido em algumas passagens, como quando Waldick fala de suas muitas mulheres, e comovente em outras, como na cena final, em que Eurípedes finalmente se expõe com toda a fragilidade de um homem em idade avançada e que ainda não encontrou “essa tal felicidade”.

O depoimento do fã, que ouve as músicas no carro, tomando sua cachaça e rememorando amores que já se foram e que poderiam ter sido, é um dos melhores momentos do doc. Confirma a tese de Patrícia de que Waldick é a expressão de um Brasil que se emociona e que não tem medo de amar, sofrer por amor, afogar as mágoas e depois amar mais uma vez, e começar tudo de novo.

Um fã afirma que Waldick fez um rio das dores do mundo. Mas a impressão que fica é que Waldick fez um rio de suas próprias dores, que ecoou no coração de muitos brasileiros.

Carolina de Assis

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