Bodanzky relembra Lévi-Strauss

No livro que fiz com/sobre ele, Jorge Bodanzky rememora seu encontro com Claude Lévi-Strauss (1908-2009) em fins dos anos 1980. Transcrevo abaixo esse trecho de Jorge Bodanzky: O Homem com a Câmera (Coleção Aplauso, Imprensa Oficial do Estado SP, 2006):

Mato Grosso: memórias de Lévi-Strauss

Minha relação com o livro Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, levou cinco anos para se transformar em filme.

Em 1985, enquanto montava Igreja dos Oprimidos em Paris, cometi a imprudência de fazer a proposta diretamente a Lévi-Strauss por telefone, e ainda por cima no meu péssimo francês. Eu queria voltar às aldeias indígenas do Mato Grosso que ele visitou em 1935 e 1938 para verificar o seu estado atual, assim como a memória que ainda houvesse dos encontros, a partir das suas fotografias e dos filmes que sua mulher, Dina, rodou na ocasião. Lévi-Strauss não foi especialmente gentil, mas pediu que lhe mandasse uma proposta por escrito. Foi o que fiz. Poucos dias depois, recebi uma resposta amável, autorizando a referência ao seu livro e o uso dos filmes. Mais que isso, ele se dizia “vivamente interessado em rever, filmadas por você no seu estado atual, as regiões que percorri há meio século”.

Com essa carta, iniciei as tentativas de levantar uma produção. Em 1988, quis envolver no projeto o CPCE (Centro de Produção Cultural e Educativa) da Universidade de Brasília, onde trabalhava como professor convidado. Nessa época, Cristovam Buarque, como reitor, estava reintegrando os demitidos de 1965. Geraldo Moraes dirigia o CPCE e David Pennington também estava lá. Juntos, fizemos um vídeo para o Cristovam, colocando em imagens o seu conceito de “Universidade Quadrangular”, que ficou sendo o título do vídeo. Antes disso, eu lecionava na Unicamp, tendo muita dificuldade em conciliar as aulas e as muitas viagens de trabalho.

A produção de A Propos de Tristes Tropiques só se viabilizaria em 1989, através da empresa Les Films du Village, com participação do canal La Sept e do Instituto Nacional do Audiovisual francês. O antropólogo Patrick Menget, da Universidade de Nanterre, um velho amigo e ex-doutorando de Lévi-Strauss, entrou como uma espécie de roteirista, embora nosso roteiro de verdade fosse o texto de Tristes Trópicos. Com o livro e as fotos na mão, fizemos uma primeira viagem em 1989 para localizar as aldeias e eventuais resquícios de memória. Encontramos, de fato, três pessoas que se reconheceram ou reconheceram parentes nas fotos de Lévi-Strauss. Dessa vez, já fiz imagens com minha inseparável V-8, que seriam mostradas aos índios no ano seguinte.

Em julho de 1990, depois de extrairmos a fórceps uma autorização da FUNAI, partimos para a filmagem principal. O cinegrafista francês Alain Salomon filmou em 16mm, eu gravei com a V-8 e David Pennington fez o som. Levamos os filmes da Dina Lévi-Strauss telecinados para mostrar aos índios. Lévi-Strauss era reticente ao se referir a esse material, ressaltando seu caráter de registro amador e falta de intenção científica. Para ele, o próprio Tristes Trópicos seria um interlúdio de férias dentro do seu trabalho científico.

Mas os índios tinham notícia daquela visita. Desde então, só Darcy Ribeiro, dez anos mais tarde, empreendera outra expedição científica de igual porte. Equipes de filmagem, no entanto, estavam longe de ser novidade. Quando estávamos numa aldeia bororo, David teve alguma dificuldade com o DAT (gravador digital de áudio), que usávamos pela primeira vez, à falta do manual de instruções. Vendo aquilo, um índio entrou na sua maloca e voltou com um aparelho idêntico, na caixa, com manual e tudo. Estávamos salvos. Uma equipe européia tinha passado por ali, semanas antes, e deixado o DAT de presente para os bororo.

Estivemos em aldeias Bororo e Kadiwéu, mas não conseguimos chegar aos nhambiquaras. A exibição dos vídeos e do equipamento era sempre uma festa. As cenas de reconhecimento se repetiram diante das nossas câmeras. Filmamos um longo e fascinante ritual funerário bororo; pedimos aos kadiwéus – como tinha feito Lévi-Strauss – que pintassem no papel as insígnias de clã que antigamente pintavam no rosto.

Para obtermos essa colaboração sem que os índios se sentissem explorados, foi fundamental a participação do Patrick Menget, com sua vasta experiência no Xingu. Além disso, através da FUNAI, negociamos previamente uma lista de presentes, como cobertores, que sempre levávamos no carro. E ainda tínhamos que pagar 100 dólares por qualquer tipo de concessão extraordinária. Tudo custava 100 dólares, como num refrão. Uma noite saímos para filmar o que seria uma festa dos bororo. Acompanhamos os índios numa picada, ao fim da qual eles simplesmente ligaram o rádio de um aparelho de som portátil. Aquilo era a festa. Por sorte, as pilhas deles logo acabaram e cedemos as do nosso gravador – ao custo simbólico de 100 dólares. Ficou acertado que filmaríamos de graça no dia seguinte…

A locomoção entre as aldeias era às vezes muito difícil. Enfiávamos nossa Rural Willis em riachos e atoleiros, verificando que as dificuldades de acesso a certas tribos ainda eram as mesmas que Lévi-Strauss descreveu nos anos 1930. O carro servia também para iluminar as filmagens no interior das malocas, a exemplo do que eu havia feito com o caminhão em Iracema.  

A aldeia Kejara, dos bororo, evidenciava claramente as transformações que estávamos querendo mostrar. A descrição, em Tristes Trópicos, de sua complexa estrutura social, baseada na complementaridade de duas metades, está na base do estruturalismo de Lévi-Strauss. Desde então, as missões religiosas haviam desmontado a organização circular das ocas e introduzido uma aldeia quadrada, a fim de obrigá-los a aceitarem o rito católico. Isso quebrou também a estrutura familiar original. Hoje a Igreja reconhece esse erro, mas a aldeia ficou assim: quadrada, com casas de alvenaria e até um cemitério cristão, onde filmamos um ritual eclético pelo espírito de um padre alemão que morreu lutando pela demarcação de terras. Quando lá estivemos, os bororo já tinham refeito uma réplica da antiga aldeia redonda, a Aldeia das Garças, com o objetivo de reviver sua cultura.

Ao fim das filmagens, fiz uma seleção do material bruto e mostrei a Lévi-Strauss no Laboratório de Antropologia Social do Collège de France, em Paris. Alguns dias depois, fizemos uma entrevista com ele, conduzida pela antropóloga Manuela Carneiro da Cunha. Havia uma reverência muito grande ao mestre por parte dos franceses. Para mim, Lévi-Strauss era uma pessoa simpaticíssima, de trato fácil e muito organizada, que ficava inteiramente ao nosso dispor pelo tempo pré-determinado. Seu interesse pelo Brasil transparecia a cada palavra. 

A própria Manuela o entrevistara em 1985, quando ele integrou a comitiva de François Mitterrand ao Brasil. Naquela breve estada, Lévi-Strauss tentara em vão revisitar as tribos, mas o avião não teve autonomia para chegar até lá. A entrevista foi feita numa fazenda de Rondonópolis (MT), em VHS muito precário. Mesmo assim, decidimos incluir alguns trechos na edição do nosso filme. Teríamos, então, três camadas de tempo superpostas: 1935-38, 1985 e 1990.  

Filmei uma série de peças do arquivo pessoal de Lévi-Strauss, como fotos e cadernos de desenhos dos índios. Outros materiais, como os grafismos dos nhambiquaras, foram reproduzidos do arquivo de Darcy Ribeiro.

Fui muito cerceado no processo de edição, feito na França. O produtor não me permitiu usar uma trilha musical do africano Manu Dibango a partir dos sons indígenas que tínhamos gravado. Ele queria o filme mais seco, estritamente antropológico, enquanto eu pretendia enfatizar o teor de aventura. Tampouco contei com a prometida colaboração de Patrick Menget no roteiro de edição. Por fim, o trabalho se estendeu além do tempo que eu poderia permanecer em Paris e foi finalizado, à minha revelia, por Jean-Pierre Beaurenaut, redator da produtora, que assina o filme junto comigo e Menget.

A Propos de Tristes Tropiques cumpriu bem o seu papel no meio etnográfico. Frisou a importância do Brasil na carreira de Lévi-Strauss e chamou atenção para a importância do material filmado pela Dina. Mas o seu tom austero impediu o salto para uma categoria mais ampla de documentário. Uma pena, pois Lévi-Strauss, que além de antropólogo é escritor, merecia um tratamento mais emotivo.

Jorge Bodanzky

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