Neste sábado, às 20 horas, com entrada franca, o Circo Voador vai receber uma atração bem de acordo com sua imagem mítica. Vai exibir o doc Tamboro, que Sergio Bernardes deixou editado ao morrer em 2007, aos 63 anos. Tomara que a projeção e o som estejam à altura da exuberância do filme, que ganhou os prêmios especial do júri e de melhor montagem da Première Brasil do Festival do Rio de 2009. Anteontem, venceu como melhor longa o 3º Cine Fest Brasil Buenos Aires.
Tamboro pode ser chamado de um grande videoclipe sobre o Brasil, se quisermos reduzi-lo a sua forma dominante: imagens extraordinárias da natureza, das cidades e das gentes brasileiras, editadas como um mosaico, uma suíte embalada por ruídos, vozes, músicas e a belíssima trilha sonora original de Guilherme Vaz. Ora vertiginoso, ora sedutoramente envolvente, o ritmo do filme nos coloca no centro de um caleidoscópio, com o país se esparramando por todos os lados.
Muitas dessas imagens foram captadas para o projeto Via Brasil, iniciado em 1996 pela Acesa Produções com patrocínio do governo federal e da Fundação Banco do Brasil. O empreendimento consistia em filmar os pontos mais notáveis de todo o território nacional, incluindo “inatingíveis” como o Monte Roraima. Com direção de fotografia a cargo de Lula Araújo, lugares como os Lençóis Maranhenses, a selva Amazônica e o Complexo do Alemão surgem na tela em enquadramentos estonteantes, sejam rasantes aéreos, balés de steadicam ou microcâmeras que parecem voar com autonomia.
Tudo é movimento em Tamboro. Movimentos de câmera, movimentos de edição e movimentos de ideias. O painel holístico vez por outra quebra seu código documental para incorporar performances e encenações, feitas especialmente para o filme. É o caso de um almoço chique numa favela, a saída de um “bonde” de bandidos, ou uma sequência de incrível ferocidade sobre a captura e contrabando de animais silvestres. Aqui Sergio Bernardes insere, em meio ao maravilhoso, um duro olhar crítico sobre a realidade brasileira. O contraste brusco e retórico comanda diversos momentos do filme. Quando corta do voo sobre a Avenida Paulista para um canyon barrento no norte do país, ou da multidão em Aparecida do Norte para um Maracanã lotado, o comentário se limita ao âmbito das formas. Mas quando passa de uma sucessão de árvores majestosas para um caminhão carregado de motosserras, Sergio Bernardes provoca no espectador um choque superior a qualquer discurso preservacionista formal. Da mesma forma, ao cortar de um grupo aguerrido de agricultores do MST para uma cena de malhação de judas em outro contexto, é uma associação mais polêmica e política que se estabelece.
Curtos depoimentos de Leonardo Boff, Hermeto Pascoal, Ailton Krenak e outros ajudam a fornecer sentido para a pletora de imagens, tentando sintetizar anotações sobre o Brasil. Mas o viés social de Tamboro tem que conviver com uma atração visceral pelo exótico. A formação de um banco de imagens, que está na base do trabalho, responde pela busca do excepcional, do grandioso e do pitoresco. Sucedem-se, então, índios, repentistas, folguedos, onças, famílias sertanejas posando para a câmera, igrejas se abrindo em cascata, cataratas, rodas de samba, hip hop… Tudo cabe se tem som e fúria para despejar diante do espectador extasiado.
A palavra tamboro significa “para todos, sem exceção” na língua dos ingaricó, povo indígena de Roraima. Ela exprime a ambição de Sergio Bernardes no sentido de abarcar com um filme o espírito brasileiro inteiro. A aventura desse filme deslumbra, inquieta e, em sua escala quase sobre-humana, interroga sobre os extremos do país enquanto volta as costas para o mediano e o corriqueiro. Por isso seria cabível perguntar se, de fato, estamos todos em Tamboro.
Leia um pouco mais sobre Tamboro e sobre Sérgio Bernardes.
Assista abaixo ao trailer do filme:
