Emoções nuas

É chato elogiar publicamente o trabalho de irmão. Mas quando se tem uma meia-irmã como Monique Gardenberg, às vezes não dá pra evitar. Monique é fera em tudo o que faz: produção de música e de festivais, direção de filmes, programas de TV, shows, peças de teatro. Ela sabe que não curto muito Ó Paí, Ó, mas respeito a sua inserção no imaginário da cultura de massa brasileira.

No teatro, especialmente, Monique tem dado mostras de um saudável desenraizamento nos textos que escolhe ou aceita dirigir. Os Sete Afluentes do Rio Ota foi um atrevimento que, a meu ver, valeu cada minuto – e eram muitos numa peça de 5 horas de duração – e marcou a chegada de uma encenadora potente. Agora, depois do ótimo Baque (texto de Neil Labute) e de Um Dia, no Verão (que não vi), Monique volta ao palco carioca com Inverno da Luz Vermelha, depois de seis semanas em São Paulo.

Foto: André Gardenberg

A peça do americano Adam Rapp põe em cena dois amigos e uma jovem prostituta num quarto de hotel em Amsterdã. Em torno da moça, uma nebulosa relação se estabelece entre os dois rapazes, de temperamentos muito diferentes. Os três voltarão a se reunir – não mais simultaneamente – um ano depois num pequeno apartamento de São Paulo, quando os ecos do encontro anterior vão assumir sentidos inesperados.

O espetáculo começa frágil, talvez um pouco convencional demais. Mas mesmo isso vai se justificar à medida que os personagens vão definindo seus contornos e as carências de cada um vão se manifestando, seja através da ternura ou da violência. A progressão dramática é impecável, com base nos desempenhos bastante viscerais de Rafael Primot, André Frateschi e Marjorie Estiano (os dois últimos têm oportunidade de se exibir como cantores que também são). Uma leve metalinguagem se insinua, apenas para realçar o caráter de “encenação” assumido pelos personagens.

Monique fez opções muito interessantes: pequenas adaptações a referências brasileiras, paredes apenas insinuadas, um falso intervalo belíssimo em que os contrarregras mudam o cenário ao som de Tom Waits. Tudo muito simples no aparato cênico, deixando toda a ênfase nos atores e no texto, um strip tease emocional que mexe tanto com a plateia como com o elenco.

Desculpem o merchandising familiar, mas vale a pena ir ao Glaucio Gill. A montagem fica em cartaz somente por mais três finais de semana.    

5 comentários sobre “Emoções nuas

  1. Carlinhos, curiosa pela referência Monique ser sua “irmã” (no texto q acaba de publicar sobre a peça no CCBB) estou lendo esta crítica e concordo. Fui na estréia no Gláucio Gil e gostei muito do impacto visual e a força dramática na interpretação dos atores. Vi seu nome nos agradecimentos da expo do André no CCBB (q só fui no encerramento, pois na abertura estava em NY) e agora entendo a partilha de afetos. Família talentosa essa, hein? Aproveite o dom e a oportunidade q a vida te ofertou. Bjsss

  2. Carlinhos,

    Não sou irmã, em nenhum grau, dos envolvidos.
    Por isso, fico totalmente à vontade para elogiar:
    a peça é altamente profissional, o elenco afiadíssimo, o texto (sobretudo a segunda parte) excelente
    Relaxe e aproveite.

    abs
    Susana

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