Nesse caminho de me tornar um ex-crítico de cinema, tenho deixado para meus colegas a tarefa de resenhar novos filmes. Na maior parte do tempo, tenho me contentado com vê-los e postar pequenas “pílulas”, comentários curtos e despretensiosos, estritamente pessoais, nas redes sociais e aqui no blog. Mas eis que, de vez em quando, é preciso abrir uma exceção.
Flores Raras me exigiu texto um pouco maior que as “pílulas” recentes. Sobretudo para festejar minha satisfação com mais essa confirmação do profissionalismo e da tarimba cinematográfica de Bruno Barreto.
Sobre Bruno, no meio do cinema brasileiro, a admiração convive com um certo desdém. Muita gente nunca se conformou com o fato de que o maior sucesso do setor, até Tropa de Elite 2, fosse Dona Flor e seus Dois Maridos, filme do “filhinho do papai” que consagrou um modelo de cinema popular no país. A esquerda não o perdoou pela humanização do torturador em O Que é Isso, Companheiro?. Boa parte da crítica não engoliu projetos menos ambiciosos no quesito tema como Bossa Nova e O Casamento de Romeu e Julieta. Por outro lado, não ser uma pessoa transbordante de simpatia também ajudou a formar uma imagem do cineasta nas conversas à boca pequena.
Seja como for, e preconceitos à parte, a obra de Bruno se mostra hoje uma das mais sólidas, sempre no rumo de um cinema comercial de qualidade e não destituído de marcas de autoria. Flores Raras é um atestado de maturidade invejável. Considero este o seu melhor filme, juntamente com o delicioso O Romance da Empregada.
A história do affair entre a urbanista Lota Macedo Soares e a poeta Elizabeth Bishop é alguma coisa que clamava por ir às telas em época tão frutuosa para a afirmação do amor entre mulheres. No roteiro escrito por Carolina Kotscho e burilado por Matthew Chapman e Julie Sayres, o que temos de fato é a relação entre três mulheres. Um triângulo amoroso que pode ser visto também como um casamento a três, uma figura isósceles. A atração e as fissuras entre Lota e Elizabeth são pontuadas com inteligência, envolvendo poesia, álcool, ciúme e política. Quase tudo flui com sobriedade e elegância. A encantadora Miranda Otto e uma assertiva Glória Pires mostram uma química digna de grandes e corajosas atrizes, muito embora Glória me pareça às vezes um pouco afetada em sua “masculinidade”.
De alguma maneira, Flores Raras faz um contraponto a outro filme de Bruno Barreto, sua adaptação noir e ousada de O Beijo no Asfalto. Se neste trabalho de 1981 a homossexualidade vinha envolta nas sombras da interdição e na ironia moralista de Nelson Rodrigues, aqui ela surge “atualizada” por uma luz natural e uma celebração quase romântica da afirmação amorosa acima de tudo.
Não posso dizer que é um filme perfeito, como sei que a produtora Lucy Barreto gostaria de ouvir. O personagem de Carlos Lacerda não compromete, mas tampouco chega a convencer. Já se discutiu por aí o desmoronamento um tanto súbito de Lota, o que particularmente não me incomodou. De minha parte, senti uma perda de legitimidade sempre que o filme se volta para personagens mais humildes, fora do círculo de luxo das principais. É como se a câmera assumisse um olhar de elite, o que só se justificaria se as cenas fossem construídas do ponto de vista da elite, o que não é o caso. O que mais se insinua é um desnível não intencional na maneira de representar, ainda que circunstancialmente, uma classe alheia à central do filme.
Esses reparos, contudo, são de importância muito pequena diante da felicidade com que o filme retrata aquele momento de antecipação na história do Rio e na emancipação gay. Flores Raras é um triunfo técnico de ponta a ponta – da fotografia de Mauro Pinheiro Jr. à abundante (mas não invasiva) música de Marcelo Zarvos. Bruno constrói alguns dos planos mais bonitos de sua carreira. E comove na forma como revela que os postes de luz do Parque do Flamengo foram inspirados na lua de Ouro Preto.

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