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O documentário de entrevistas elege o entrevistado como foco, enquanto o entrevistador permanece na opacidade como agente do processo. Em Sete Visitas, Douglas Duarte (Personal Che) faz uma experiência muito frutífera ao relativizar esse procedimento, colocando também o entrevistador no foco de interesse. As coisas ganham ainda maior originalidade por se tratar de uma única entrevistada, a operária, ex-camponesa e ex-garota de programa Silvana Socorro de Almeida, que conversa com sete entrevistadores. Seis deles exercem a entrevista como parte de seu ofício: uma escritora, o cineasta Eduardo Coutinho (provavelmente em sua última gravação como entrevistador), uma dupla de terapeutas da técnica Fogo Sagrado, um psicanalista, um juiz de Direito e o próprio Douglas através dos demais. A sétima é a filha de Silvana, que encerra o filme com uma sessão de confissões familiares.

Silvana é personagem coutiniana por excelência, com uma vida repleta de fatos dramáticos e curiosos, além de um jeito cativante de contá-los. Mas aqui ela se transforma também no elemento catalisador para revelar seus diversos interlocutores. A edição em campo e contracampo frontais equaliza a participação de cada dupla, desvelando o comportamento do entrevistador – até porque Silvana tem a função de perguntar de volta e estabelecer, na verdade, uma entrevista bilateral. A maneira límpida e transparente como ela responde e reage às diferentes abordagens contribui para fazer dos encontros peças dramáticas cheias de vida e surpresas.

Desde que Eduardo Coutinho redefiniu e tornou complexo o papel da entrevista com pessoas comuns, o documentário brasileiro tem expandido o sentido dessa ferramenta de muitas maneiras. Sete Visitas é mais um avanço nesse caminho. Evidencia a atuação do entrevistado como ator de si mesmo quando o submete a inquirições de diversas naturezas. E situa mais claramente o entrevistador como alguém cujos interesses e condutas são decisivos no resultado de um documentário. ♦ ♦ ♦ ♦