Em busca do moleque de Fenyang

Desde que o conheceu no Festival de Berlim de 1998, Walter Salles elegeu Jia Zhang-ke o seu cineasta favorito, a ponto de se reunir com o crítico Jean-Michel Frodon para realizar um filme e um livro sobre ele. O livro, O Mundo de Jia Zhang-ke, é um mergulho detalhado na obra do cineasta. O filme, que estreou no Brasil esta semana, é o encontro de duas delicadezas.

A longínqua Fenyang é o cenário principal de mais esse retorno de Jia a sua cidade natal. Em 2006, o francês Damien Ounouri já o havia acompanhado numa visita como essa, no longa Jia Zhang-ke Vai para Casa. O esquema não diferia muito: Jia caminhava, encontrava gente conhecida, revia locações de seus primeiros filmes. O filme de Walter, se em parte refaz o mesmo trajeto, conta com uma cumplicidade bem maior de Jia, o que lhe permite um acesso mais penetrante na personalidade do realizador de Plataforma. Assim é que entramos com ele na casa onde morava com os pais depois de 29 anos sem lá voltar. Participamos de uma amável conversa com a mãe e a irmã de Jia. E testemunhamos um embargo de emoção quando ele fala dos poucos momentos de felicidade que seu pai, perseguido pela Revolução Cultural, teve na vida.

Walter recolhe depoimentos também dos principais companheiros de trabalho de Jia, como a atriz e esposa Zhao Tao, o ator/alterego Wang Hongwei, o ator/primo Han Sanming e os técnicos de sua fiel equipe. Flashes de uma palestra na Academia de Belas Artes de Pequim testemunham o interesse que o cinema de Jia Zhang-ke desperta entre os jovens contemporâneos.

O filme tece uma costura habilidosa entre as cenas atuais e os trechos de sete filmes de Jia, criando elos e ressonâncias que contextualizam a obra em relação à vida do diretor e às transformações por que passou a China nos últimos 17 anos. O World Park de Pequim, um dos cenários de O Mundo, e algumas locações de Um Toque de Pecado também são revisitados nessa viagem pela memória de um cineasta tão apegado às questões da memória.

Depois de passar pelos diversos filmes e recolher tantas histórias exemplares da formação, do pensamento e dos métodos de Jia, Walter encaminha o filme para um final singelo e tocante. Jia está de volta aos cenários de Plataforma para um projeto futuro, que vai retomar os personagens daquele. De alguma forma, ele está refazendo o itinerário que sempre o conectou com sua província de origem. Volta a falar de família, problemas de saúde, coisas de uma pessoa como outra qualquer. Este é o mais profundo retrato de Jia Zhang-ke que alguém poderia produzir. O homem comum brindando com velhos amigos. No fundo, ele nunca deixou de ser o “moleque” (“lalai”) de Fenyang, como o chamavam nos tempos de criança.

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