Arquétipos e epifanias em “Dois Irmãos”

Abro hoje uma exceção para comentar um produto da nefasta TV Globo golpista. Quem merece essa prerrogativa é Luiz Fernando Carvalho, que constitui, ele próprio, uma exceção no império de banalidades e calhordices da Globo. Assisti aos três primeiros episódios da minissérie Dois Irmãos, que já estão disponíveis na Globoplay e começam a ser transmitidos hoje (segunda) na TV.

A exceção vai também para Milton Hatoum, cuja prosa é das que mais me fascinam na literatura brasileira contemporânea. Não é fácil transpor para a tela a ambientação sensorial da Amazônia descrita em Dois Irmãos, nem as densas pulsões psicanalíticas e eróticas que emanam daquela família. A crer nesses episódios iniciais, Maria Camargo, autora da adaptação, e Luiz Fernando optaram por um tratamento expansivo, quase operístico, em que o temperamento e conduta corporal dos descendentes de libaneses às vezes mais parecem de italianos. Sem falar num dos belos temas musicais de Tim Rescala que emula o Adagietto da Quinta de Mahler e inevitavelmente lembra Morte em Veneza de Visconti.

De qualquer forma, é bom ver Luiz Fernando retornar a universo semelhante ao de sua obra-prima cinematográfica Lavoura Arcaica. Isso significa voltar não apenas aos aspectos exteriores da “família libanesa” (cenografia, hábitos, falares), mas também aos arquétipos familiares que comandam tanto o romance de Raduan Nassar quanto o de Hatoum. As figuras em cena remetem a Caim e Abel, a Édipo, à mater dolorosa, à parábola da cigarra e da formiga, entre outras filiações possíveis. Ao mesmo tempo, narra-se a passagem de quase meio século pela Manaus da II Guerra e do pós-guerra a partir de uma célula de imigrantes muçulmanos interagindo com nativos, católicos, índios e caboclos.

Como os irmãos Yakub e Omar, rivais nos amores e na forma de usufruir a vida, a minissérie também oscila entre o glamour de uma elite manauara caracterizada em traços fortes e uma poética delicada que se aproxima dos sentimentos mais íntimos. As cenas ora se aceleram, ora se estendem, como se procurassem sempre exprimir uma dinâmica dos corpos famintos de desejo e consolo. A longa sequência da partida de Yakub para o Líbano, por exemplo, se compraz em pintar o melodrama com as pinceladas mais largas possíveis. Já a cena do parto de Omar, poucos minutos depois do gêmeo Yakub, parece mover o céu e a terra para transmitir o presságio de um tumulto.

Em termos de roteiro, até onde vi, os diversos tempos e camadas de narração se coadunam com clareza. No primeiro episódio, tenho dúvidas se a antecipação do flashback do encontro entre Halim e Zana, os pais, não prejudica um pouco o envolvimento inicial do espectador com o drama central dos irmãos.

Na direção, Luiz Fernando demonstra mais uma vez seu obsessivo cuidado com os detalhes formais e a busca de conciliar a intensidade permanente exigida pela televisão com a sobriedade requerida pelo original literário. O clima de epifania, encantamento cenográfico e musicalidade é praticamente constante. A fotografia de Alexandre Fructuoso é esplêndida. Os atores compartilham o apetite de encenação do diretor, com destaque para Antonio Caloni (Halim), Juliana Paes (Zana) e Matheus Abreu como os dois gêmeos na juventude. Até o terceiro episódio, Cauã Reymond ainda não tinha feito sua entrada como Yakub e Omar mais maduros.

Algumas marcas de estilo e narrativa já se destacam. As simultaneidades de grande efeito retórico, a ênfase nos pés dos personagens, a efusividade dos braços abertos, o uso sugestivo de véus e cortinas – tudo isso a sublinhar que estamos vendo, todo o tempo, não um espelho realista, mas uma representação exuberante, uma saga mítica, uma obra de arte.

7 comentários sobre “Arquétipos e epifanias em “Dois Irmãos”

  1. Vi dois episódios e também achei um acerto a minissérie, de temas e cenas fortes, de literatura e direção pulsantes. Pontos positivos devem mesmo ser comentados. Parabéns por sua resenha crítica!

  2. Muito boa essa minissérie por mostrar a nossa região, a nossa querida Manaus. Ela nos mostra a elite daquela época, a ” belle epoqué”. E grande destaque para a querida Juliana Paes.

  3. Grata pela “exceção”. Seu texto e a atitude valorizam a importância do autor Hatoum e do diretor Luiz Fernando para a produção artística brasileira. Mas, acima de tudo, valoriza a importância do espectador. Isto é construção de conhecimento, educação, cultura, democracia… ah, política!

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