Cinema de ocupação

ERA O HOTEL CAMBRIDGE é uma experiência rara no cinema brasileiro contemporâneo. Avança várias casas em relação a longas documentais já em si reveladores sobre o funcionamento das ocupações de moradia em São Paulo, como “À Margem do Concreto”, de Evaldo Mocarzel, e “Dia de Festa”, de Toni Venturi. Em seu melhor filme até hoje, Eliane Caffé costurou diversos tecidos numa emenda quase inconsútil de ficção e documentário.

O antigo e luxuoso Hotel Cambridge, ocupado desde 2012 pela Frente de Luta por Moradia (FLM), é o cenário da história fictícia de um prédio cujos ocupantes estão ameaçados de despejo “dentro de 15 dias”. Atores como José Dumont (protagonista de três longas de Eliane) e Suely Franco se mesclam aos ocupantes reais tanto nas atividades cotidianas do coletivo, como em ações da trama ficcional. Por exemplo, ensaiam uma peça de “artivismo” e editam um videoblog sobre a sua luta.

Dentro desse espaço de resistência e compartilhamento, o filme se detém na relação entre brasileiros e refugiados estrangeiros. Muitos desses imigrantes costumam procurar as ocupações como porta de entrada no Brasil. Dá-se então um convívio feito não somente de solidariedade e interação, mas também de disputas e choques culturais. A xenofobia e o preconceito rondam as mentalidades, mesmo nesse tipo de contexto em que todos, inclusive os brasileiros, são refugiados. Eliane trata desse tema com extrema habilidade através de conversas, discussões e romance entre os personagens.

É onde ERA O HOTEL CAMBRIDGE se assemelha aos filmes do português Pedro Costa com seu personagem caboverdiano Ventura. Realidade e invenção se confundem para captar o espírito de uma  situação de deslocamento e acerto de contas com a memória. As comunicações por skype entre os refugiados e seus parentes distantes são especialmente tocantes, assim como os momentos em que a poesia se sobrepõe às trivialidades do dia a dia.

O filme se ergue acima de sua própria altura quando sai em campo para registrar o drama das ruas: o ato de ocupação de um novo edifício e o ataque policial para reintegração de posse de outro prédio. Essas últimas cenas, registradas em local distinto, foram habilmente incorporadas à ficção do Cambridge para comporem uma sequência absolutamente eletrizante entre o fora e o dentro de um imóvel sendo retomado com violência.

Carmen Silva Ferreira, coordenadora da FLM, tem um papel de destaque no filme ao encarnar a si própria e deixar transparecer algo mais que a sua verve de líder e mulher forte (foto no alto). Ela foi figura fundamental no processo de construção coletiva do filme, que contou ainda com a direção de arte de Carla Caffé juntamente com os alunos da Escola da Cidade (centro de estudos focado em arquitetura, história, cultura, território e natureza) e os ocupantes do Cambridge. Cabe mencionar, ainda, o poder imersivo proporcionado pela fotografia de Bruno Risas, a montagem de Marcio Hashimoto e a trilha sonora do grupo de arquitetos (!) Vapor 324.

Um filme para ecoar durante muito tempo na consciência da cidade – melhor dizendo, das cidades.

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