Close no povo da cana

Vi MODO DE PRODUÇÃO aqui no Janela Internacional de Cinema do Recife, fora da competição. Nesse documentário sobre a rotina de um sindicato rural no interior de Pernambuco, a diretora Dea Ferraz se vale do método de observação pura, bem semelhante ao utilizado sistematicamente por Frederick Wiseman. A simples sucessão de flagrantes dos atendimentos, por acumulação e amostragem, forma um perfil das relações de trabalho e do papel do sindicato e do estado (o modo de produção) num contexto de desproteção e alienação.

Filmando basicamente com duas câmeras nas pequenas salas de atendimento, Dea faz uso intenso dos closes para captar o esforço de cortadores de cana, preparadores de terra e tratoristas, muitos deles analfabetos e ignorantes sobre seu histórico profissional, para vencer a humildade e colocar suas reivindicações. São problemas de redução de salários, falta de pagamento de horas extras e adicional de insalubridade, férias não usufruídas nem remuneradas, etc. O sindicato faz a intermediação entre os trabalhadores, as usinas de açúcar e a Justiça do Trabalho. Além disso, presta assistência às mulheres nas batalhas cotidianas contra o machismo, o estresse e outras ameaças. E ainda fornece medicamentos, transporte e outras formas de assistência.

É preciso destacar que o material bruto foi captado em 2013, quando o país vivia um período de menor vulnerabilidade nas relações trabalhistas. O sindicato de Ipojuca, Camela e Nossa Senhora do Ó, já então bastante humilde em suas possibilidades e submetido – mas também cúmplice – a grande pressão burocrática, hoje fatalmente estará em situação ainda mais difícil. Especulações à parte, importa dizer que MODO DE PRODUÇÃO nos aproxima com muita eficácia de um microcosmo da realidade brasileira profunda, em que relações de exploração e de ignorância se perpetuam desde a época colonial.

Dea Ferraz se mantém quase sempre encerrada no interior do prédio, deixando a cidade passar através de uma porta, na forma de gente e caminhões. Quando mostra o porto de contêineres de Suape, tido e depois desmentido como promessa de desenvolvimento para região, o faz à distância, com a imagem turvada pelas ondas de calor. Nada mais que uma miragem, enquanto o drama real dos trabalhadores e de suas famílias continua dependendo do modesto socorro do sindicato.

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