Pra onde foi esse trem?

Se algum plano lançado pelo “governo” Temer merecesse um mínimo de credibilidade, poder-se-ia esperar que as ferrovias brasileiras ganhassem um impulso significativo. O Plano Nacional de Logística prevê que, até 2025, a participação dos trens no transporte de cargas vai saltar de 18% para 31%, em detrimento das rodovias. Para o traslado de passageiros, porém, não há horizonte à vista.

O documentário ESTRADA DE SONHOS oferece um dossiê sobre a história e a situação atual da malha ferroviária do país. O tom dominante é a nostalgia, que cala fundo em passageiros, velhos maquinistas, ferroviários aposentados, poetas e no cartunista Carlos Latuff. Sim, Latuff, famoso por seu ativismo pró-Palestina, diz-se também um “arqueólogo ferroviário”. Tem por hobbie fotografar e desenhar antigas linhas férreas, estações desativadas, trens sucateados. Esse trabalho, que infelizmente não aparece no filme, pode ser visto neste blog.

Embora nunca tenha sido um esplendor em matéria de trilhos, o Brasil já teve melhores dias sobre os dormentes. Linhas pioneiras como a Mauá-Petrópolis, a São Paulo Railway e a Central do Brasil tiveram papel muito mais relevante do que o desempenhado pelas que ainda estão em funcionamento. A biografia das nossas ferrovias passa por processos de estatização e privatização, expansão e desmonte, que foram minando sua importância, sobretudo depois que o transporte rodoviário avançou dramaticamente nos anos 1950. O resultado é que, para muita gente, os caminhos de ferro são hoje mais folclore que realidade.

Ainda assim, o documentarista Pedro von Krüger consegue captar flashes interessantes de vagões em atividade em várias partes do Brasil. Gente para quem o trem continua a servir como o meio de transporte mais tranquilo e rápido. Outros para quem a passagem dos trens por seu lugarejo significa um ganho de vida. A história de uma família de várias gerações de ferroviários, até chegar à jovem maquinista Maria Raquel, é um dos achados da pesquisa que o filme aborda em velocidade maior do que deveria.

ESTRADA DE SONHOS faria uma viagem mais proveitosa se não tivesse um roteiro tão dispersivo. Alguns personagens (como o congadeiro mineiro e a vendedora baiana) atraem para si uma atenção demasiada, levando a desvios pouco interessantes em relação ao tema central. Chega-se ao ponto de entrevistar um casal pelo simples fato de que eles se conheceram através de um amigo ferroviário.

Faz falta um dispositivo que orientasse a exposição dos diversos ângulos, em prol de um entendimento mais claro das muitas questões (históricas, econômicas, políticas, técnicas e humanas) envolvidas, e até mesmo do ponto de vista que o filme esposa. Restam as reminiscências, o saudosismo e um abuso cafona da imagem com bordas dissolvidas para efeito supostamente poético.

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