Sergio, entre o doce e o amargo

SERGIO (duas vezes) na Netflix

Nem sempre o que se presta a um documentário funciona bem como docudrama. Uma prova disso é SERGIO, recém-lançado na Netflix. O diretor Greg Barker tinha feito um ótimo doc homônimo sobre Sérgio Vieira de Mello, o superdiplomata e bombeiro político morto tragicamente na explosão de um carro-bomba na sede da ONU em Bagdá, em 2003.

Sergio, o documentário, também está na Netflix. É um belíssimo trabalho de recorte clássico, comedido e irretocável na forma como trata uma perda trágica para o mundo inteiro. Barker fundiu ali um comovente drama humano com detalhes (ainda então) reveladores do absurdo que foi a presença da coalizão liderada pelos EUA no Iraque. É absorvente e às vezes lancinante a reconstituição dos trabalhos de resgate – com vinhetas encenadas à Errol Morris – e o relato real de envolvidos, testemunhas e sobreviventes.

A nova versão, produzida e estrelada por Wagner Moura, partiu da mesma fonte, a biografia de Sérgio por Samantha Power. Mas o roteiro de Craig Boten criou uma estrutura romanesca que banaliza um bocado a trajetória do personagem. Lembrando muito a opção de Oliver Stone no seu filme sobre a derrubada das Torres Gêmeas, toda a narrativa parte das quatro horas que Sérgio passou parcialmente soterrado sob os escombros do prédio antes de morrer. As ondas de flashback deixam a impressão de que tudo se passa na memória e na imaginação dele, mas nem isso se define claramente, nem há um tratamento específico desse tipo de representação.

Em episódios curtos e espargidos no tempo, vemos as gestões do Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos no Timor Leste, no Camboja e no Iraque, onde ele chegou acreditando que ficaria apenas quatro meses antes de deixar o cargo e voltar para o Brasil. Capaz de lidar serenamente tanto com governantes despóticos quanto com criminosos de guerra, ele aplainou o terreno para que o Timor Leste consolidasse sua independência da Indonésia e se opôs à ocupação do Iraque pelos americanos após a derrubada de Saddam Hussein. A bandeira de uma ONU independente – principalmente em relação aos EUA – o colocava em rota de colisão com o governo Bush.

O filme tenta conciliar esse thriller diplomático com o romance entre Sérgio, que aguardava o divórcio, e Carolina Larriera, funcionária da ONU que viveu com ele os últimos anos e hoje mora no Rio de Janeiro. É até possível que a história de amor faça jus à realidade. Pelo menos existe uma química convincente entre Wagner Moura e a mimosa cubana Ana de Armas (a mais recente Bond Girl). No entanto, o peso desse plot ameaça adocicar o filme em troca de ficar mais palatável para o grande público. Por conta disso corre também uma longa e melosa cena em que Sérgio conversa com uma humilde tecelã timorense.

Wagner talvez responda pela inserção de Cartola, Caetano e moqueca de camarão, além de se sair bem na sugestão de um Sérgio ao mesmo tempo firme, simples e generoso. Mas é forçoso também admitir que sua atuação está um tanto medida demais, com excesso de pausas no meio das falas.

SERGIO faz um bom mix de cenas de noticiário e reconstituições na área próxima ao escritório da ONU de Bagdá. As cenas de Timor Leste foram rodadas na Tailândia, enquanto o Rio de Janeiro entra quase sempre como um refúgio idílico no sonho dos dois amantes. Tive medo de soar de repente uma batidinha de Bossa Nova, mas felizmente não se chegou a tanto.

2 comentários sobre “Sergio, entre o doce e o amargo

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