Índios de poesia

500 ALMAS, de Joel Pizzini, motiva abordagem do filme-ensaio no seminário NA REAL_VIRTUAL

No princípio é o magma. Terras e águas, sombras e reflexos, música e retalhos de vozes em guató, alemão e português. Não sabemos onde estamos, exceto que é no início de alguma coisa. Um filme que começa, um mundo que se desvenda devagar. Os sentidos vão se formando aos poucos, como ecos que se agarram às paredes e principiam a formar figuras. Um homem no mato, um homem num museu, uma mulher num barco. A narração do Gênesis repercute ao longo de todo o filme, como ondas.

Tudo é líquido em 500 Almas, da própria topografia do Pantanal à steadicam que flui ao redor dos personagens. A estrutura mesmo do filme sugere uma corrente entre vasos comunicantes, com temas e informações correndo à margem de qualquer linearidade didática. Há uma curiosa seqüência em que Joel Pizzini adota procedimento convencional de depoimentos em continuidade para narrar o bárbaro assassinato de um líder guató por caçadores de jacarés em 1982. Essa linguagem parece estar ali somente para enfatizar sua ausência no resto do filme, onde imperam o encadeamento poético, a metáfora e as ressonâncias.

Ninguém vai sair da sala de projeção sem saber que os índios guatós foram considerados canibais no século 16, redescobertos como nação pelo etnógrafo alemão Max Schmidt, dados como extintos na década de 1960 e “ressuscitados” como cultura mesclada, esfarelada, quase totalmente esquecida. Ninguém vai deixar de saber que eles têm barba de chinês, não usam adjetivos e acreditam que um dia aquela água toda explodiu e formou a grande baía onde vivem. Mas essa introdução ao universo físico e espiritual dos guatós nos chega não com a linguagem dos cientistas, mas com a cadência dos poetas. Manuel de Barros ilustra bem essa diferença ao falar do idioma guató, que o encantou não pelo significante das palavras, mas pelo seu toar. Pizzini fez um filme sobre o tom audiovisual do Pantanal, o percutir das falas, latidos, sons de caça. Prenhe de razão, ele chama isso de “etnopoética”.

Esse cineasta prodigioso parece imune ao banal e ao gratuito. Cada passo de sua criação atende a necessidades poéticas do tema ou das personagens. Em 500 Almas, ao mote da água (e suas ligações com “alma”) somam-se outros que emanam do mundo guató. A edição do filme (de Idê Lacreta) remete tanto a vasos comunicantes como ao trançar da palha e à coleta de cacos com que os guatós vêm tentando reconstruir e manter sua memória cultural. Isso, porém, longe de significar uma mera sujeição da linguagem cinematográfica à expressão indígena, estabelece um diálogo com ela.

Joel Pizzini não se furta a “dirigir” os índios, fazê-los posar diante das câmeras de Dib Lutfi e Hélcio “Alemão” Nagamini, sob a direção de fotografia do “pintor” Mário Carneiro. Mais que ouvi-los, o filme quer construir com eles uma pequena mitopoética. Para isso, sublinha o caráter épico da reconquista da ilha Insua, retomada utópica para uns e símbolo de retrocesso para outros. No plano do hipertexto, liga o destino dos guatós à tradição protecionista de Rondon, às discussões coloniais sobre a identidade espiritual dos índios (representada por trechos da peça A Controvérsia, de Jean-Claude Carrière), ao interesse romântico dos alemães pela vida natural (Siegfried, Goethe) e até aos arquétipos bíblicos da comunicação (a Torre de Babel).

500 Almas é tanto um filme sobre índios como um filme sobre etnógrafos. Estamos no reino da pesquisa, da tradução e do resgate/construção da memória. Esses procedimentos ecoam no mesmo diapasão fragmentário da vida indígena. Mas estamos, sobretudo, no reino do cinema. Eis aqui um objeto puramente cinematográfico, um filme-ensaio que recusa tanto a submissão ao real e a “pureza” documental como os adereços de videoarte tão em voga.

No que diz respeito à importância do som, o filme se avizinha de Aboio, de Marília Rocha, e Diário de Naná, de Paschoal Samora, outros docs onde a invenção arrazoada marca tanto a banda sonora como as imagens. Mas no que toca à sua arquitetura geral, 500 Almas está mais próximo de uma expressão oriental, ideogramática – ou Idê-ogramática?. Isso, não por acaso, também vem dos guatós. As pausas, silêncios e operações mentais sugeridas pela montagem têm um tempo e uma qualidade de comunicação pictórica que fazem desse filme o mais oriental do cinema brasileiro em não sei quanto tempo.

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