É Tudo Verdade: Gorbachev. Céu

Exibição gratuita: Plataforma Looke, 11/04 às 19h00 durante 24 horas

por Paulo Lima

Memórias da Perestroika

“A história é uma senhora caprichosa.” Quem diz a frase é Mikhail Gorbachev, numa cena do documentário Gorbachev. Céu, uma produção da Letônia/República Tcheca de 2020 que se debruça sobre as memórias do ex-líder político, responsável pela transformação nas estruturas de poder da antiga União Soviética, com a perestroika e a glasnost.

As cenas iniciais mostram o interior de uma casa suntuosa e silenciosa. Situada nos arredores de Moscou, vigiada por câmeras e rodeada de cercas eletrificadas, a casa dá uma dimensão da solidão de seu morador, um homem muito envelhecido que dorme diante da TV. Custamos a crer que ele e Gorbachev são o mesmo personagem. Os sinais de decrepitude se acentuam quando vemos que Gorbachev, hoje com 90 anos, necessita de um andador para se locomover.

Essa imagem de fragilidade, entretanto, se desfaz à medida que o diretor Vitaly Mansky começa a puxar pelas memórias de seu personagem, inicialmente explorando amenidades, e por fim tentando adentrar a experiência do poder vivida por ele à frente do ex-império soviético. Vitaly consegue contornar o lugar-comum que costuma caracterizar esse tipo de abordagem, evitando usar imagens históricas. As raras que podem ser vistas são aquelas que mostram Gorbachev em poses oficiais, dividindo as paredes da casa com retratos de sua falecida esposa, Raisa.

O que vemos é um Gorbachev astuto e escorregadio como um arenque, procurando se esquivar das perguntas incisivas de Vitaly sobre questões como o contexto que deu lugar às mudanças que culminaram no esfacelamento da União Soviética, e sobre a realidade atual da Rússia sob o governo Putin.

Provocado, Gorby procura se defender das críticas que hoje pesam sobre ele, que se originam em seus próprios compatriotas. “O socialismo é um ponto de vista forte, mas alguns acreditam que eu destruí o socialismo”. Em sua defesa, ele evoca a herança dos ideais do passado – “ainda me vejo como um socialista, francamente, ainda vejo Lênin como nosso Deus” -, e execra Stálin como um não socialista, “uma pessoa autoritária”. Vêm à tona suas divergências com Boris Yeltsin, que o levaram a renunciar à presidência da URSS. Como se mirasse as novas gerações, Vitaly insere na narrativa pequenos verbetes explicativos sobre os personagens e eventos históricos mencionados por Gorbatchev.

No entanto, o filme traz um inesperado aspecto pitoresco, ao revelar uma faceta desconhecida de Mikhail Gorbatchev: a de amante da poesia e cantor. As reminiscências de sua relação com Raisa fazem aflorar nele derramadas declarações românticas do tipo: “O que pode ser mais elevado do que amar e ser amado por uma mulher?” Se o documentário pode ser considerado um testemunho sobre a natureza do poder, também não deixa de exibir o lado divertido que sobressai de um de seus mais célebres representantes.

Paulo Lima

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s