É Tudo Verdade: “João por Inez” e “Sem Título #7 Rara”

Exibição gratuita: Plataforma Looke, 11/04 às 13h00 durante 24 horas

João Cabral de Melo Neto está presente em dois curtas muito diferentes que estreiam no É Tudo Verdade. Em Sem Título #7 Rara, de Carlos Adriano, o poeta está na epígrafe, trecho do livro Auto do Frade sobre acordar e reconhecer-se. Em João por Inez, de Bebeto Abrantes, ele está nas lembranças domésticas da filha, Inez Cabral.

O poeta como pai

O conhecimento e a paixão de Bebeto Abrantes por João Cabral já o levaram a moldar o inventivo Recife Sevilha – João Cabral de Melo Neto em 2003 (veja o filme aqui). Mas não saciou o desejo do documentarista de ampliar a percepção do público a respeito do autor de O Cão sem Plumas. Ele está preparando um novo longa-metragem com materiais inéditos filmados em vários países e trechos não utilizados da grande entrevista que fez com João Cabral.

Enquanto isso, apresenta aqui um recorte de memórias de Inez Cabral sobre o pai, sobrepostas em imagens de filmes domésticos da família, rodados em diversas partes da Europa pela primeira esposa de João Cabral, Stella Maria. João por Inez é o que o título diz: traços para um perfil do poeta e diplomata como pai. O homem “ranheta” que desdenhava de grandes intimidades e nivelava as crianças por cima na hora de ensinar. Alguém que mostrava emoção sem falar de emoção.

Inez procura desfazer o epíteto de “poeta sem alma”, destacando a dimensão autobiográfica embutida em boa parte de sua obra. As imagens de Super 8 revelam o lado descontraído de João Cabral, em períodos de folga ou férias, quando ele se transmutava no paizão que faltava na rotina do trabalho da escrita e da diplomacia. “Tive a sorte de ser filha dele”, diz Inez. E nós, a sorte de ganhar essa visão relativamente íntima de um poeta mais conhecido pelo rigor e a justeza.

No set de Setsuko

Sem Título #7 Rara é um retorno de Carlos Adriano a algumas de suas fixações e a diminutos fragmentos de filmes anteriores. Retorno ao Yasujiro Ozu de Sem Título # 5 – A Rotina Terá seu Enquanto, mas agora ancorado na figura serena da atriz Setsuko Hara em seis filmes de Ozu. Retorno à experiência de aproximar signos muito díspares com efeito inesperado e refrescante (retorno eu aqui a dois adjetivos já usados antes em relação a Adriano).

No caso, as imagens de Setsuko, suprassumo da mulher japonesa, se amoldam a três versões da canção-chiclete inglesa I Go to Sleep, de Ray Davies, por Peggy Lee, Anika e Les Oisives. Retorno, portanto, às variações da canção La Mer usadas em Sem Título # 2 – La Mer Larme. Retorno, ainda, à figura de Vassourinha, cantor de morte precoce, evocado por Adriano em um de seus primeiros curtas, A Voz e o Vazio – A Vez de Vassourinha. Aqui, ele reaparece pedindo silêncio.    

Tudo isso se articula num fio poético que vai do sono à morte. Setsuko Hara prepara-se para dormir e repousa a cabeça num travesseiro em diversos filmes. Ou chora a perda de alguém entre sorrisos. A atriz “morreu para o cinema” após a morte de Ozu, em 1963, ficando reclusa até o falecimento, aos 95 anos, em 2015. Deixou como imagem única aquele semblante plácido e jovem, que representou a filha dedicada, a esposa fiel ou a viúva inacessível nos filmes de Ozu.

Esse novo curta reitera uma faceta interessante do trabalho de Carlos Adriano, que é uma mescla de minimalismo e construtivismo. Na vertente minimalista, ele opera com variações de unidades visuais e rítmicas que se desdobram e se repetem. Positivo e negativo se alternam; a cor e o preto e branco se combinam às vezes num mesmo frame. Já na linha construtivista, o quadro dos filmes de Ozu é submetido a inversões de eixo (horizontal e vertical) e acrescido de margens adicionais a um 1/4 ou até 1/8 da tela. Uma nova arquitetura se desenha na imagem enquanto Setsuko e as cantoras “go to sleep”.

O retorno (ou regresso) é uma figura dominante no cinema de Adriano. Um olhar afetuoso sempre devotado à ressurreição de ícones, sobretudo do cinema. Arquivos que saltam vivos da memória fílmica para dançarem de novo, com os sentidos recriados e reacordados por choques poéticos.

Como definiu João Cabral,

“Acordar é reacordar-se
Ao que em nosso redor gira”.

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