FOGO-FÁTUO e FANTASMA NEON
A nobreza é objeto de um misto de nostalgia, mitificação e ironia para os portugueses. Isso aparece com frequência no cinema, seja em abordagens diretas, seja em referências esparsas. O diretor João Pedro Rodrigues, um dos grandes do atual cinema português, já havia especulado sobre a aparência física de Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, no provocativo curta O Corpo de Afonso.
O longa Fogo-Fátuo, comédia de apenas 67 minutos, começa no ano de 2069, quando o fictício rei Alfredo está à beira da morte. O filme logo recua 58 anos no tempo para que possamos entender por que o moribundo tem no leito uma miniatura de caminhão de bombeiros. Em 2011, o jovem príncipe deixa os pais estupefatos ao dizer que vai ser um soldado do fogo. “Não confunda família real com cinéma du réel”, reage a rainha Teresa, uma poça de preconceitos.
Como fabulista queer, João Pedro Rodrigues não se deixa amofinar pelos limites da estranheza. Assim é que Alfredo vai treinar com os bombeiros, sendo ridicularizado e envolvido numa performance de corpos nus que mimetizam quadros famosos para um calendário. Em outro momento culminante de maluquice, ele participa de um número musical com os sapadores de Setúbal.
É claro que não faltará um namoro gay interracial, com direito a masturbação recíproca numa floresta recém-incendiada. As florestas, aliás, são um espaço mágico para as travessuras de João Pedro, como já vimos em Morrer como um Homem e O Ornitólogo.
Que ninguém espere o mesmo nível desses dois belíssimos filmes. Fogo-Fátuo é despretensioso demais para ser levado a sério. O humor anti-monárquico é tolinho, enquanto as aventuras junto aos bombeiros servem mais para exibir genitálias do que para comentar os incêndios que andam assolando as matas da Europa.
Fogo-Fátuo está sendo exibido nos cinemas com o curta brasileiro Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli. Este, sim, um filme original e criativo, que coloca entregadores de aplicativo para dançar em busca de reconhecimento como gente e como classe. Foi um dos melhores filmes a tematizar a condição contemporânea durante a pandemia.

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