PACIFICTION no streaming
Ninguém pode negar que Albert Serra faz um cinema muito particular e até mesmo idiossincrático. Nele, a política assume um viés de excentricidade, individualizado em personagens que encarnam crises e sintomas um tanto bizarros. Assim foi com o magnetizante A Morte de Luís XIV, em que o monarca agonizava o filme inteiro, e com Liberté, uma maçante pegação sexual e sadomasoquista na França do Ancien Régime.
Pacifiction, eu diria, está a meio caminho entre um e outro. Serra, um catalão que aparentemente só pensa na França, se abalou para o Taiti e redondezas, na Polinésia Francesa, a fim de filmar uma saia justa diplomática. No centro da narrativa está De Roller (Benoît Magimel), alto comissário enviado às ilhas pelo governo francês. O homem é um poço de ambiguidade, arrogância e cinismo. Suas posições são ambivalentes.
Os habitantes locais cobram dele apoio para que o governo francês não retome os testes nucleares que ali faziam 20 anos antes. Esperam também que ele interfira para vencer a resistência dos religiosos à instalação de um cassino na ilha. Sempre no seu terno branco impecável, De Roller os enrola enquanto pode. Não sabemos ao certo o que ele de fato pensa e pretende, sobretudo depois de ver o que parece ser um submarino circulando pela região e prostitutas sendo levadas ao alto mar. Suas previsões para a Polinésia Francesa são apocalípticas, e ele está mais para Poncio Pilatos que para um herói anticolonialista.
A população se divide entre o medo do futuro e os ensaios de dança típica que talvez canalizem a violência reprimida pela pasmaceira tropical. De Roller é alguém que ama a violência, mas a pratica de maneira insidiosa pela dissimulação e a manipulação. Shannah (Pahoa Mahagafanau), uma charmosa jovem trans, estabelece com ele um jogo de sedução que explicita bem as relações dúbias entre colonizador e colonizado.
É bem provável que a maioria de nós saia do filme sem perceber muito bem o que se passou. Entre conversas digressivas, mais monólogos do que diálogos, e uma montagem que também desorienta bastante, não há muito o que apalpar com firmeza.
No entanto, como é bonita a viagem! O elenco atua de modo milimetricamente persuasivo, o que por si já garante um certo envolvimento durante os 165 minutos de incertezas e inação. Benoît Magimel levou o Prêmio César de melhor ator em 2023 por esse trabalho.
Esteticamente, o filme é deslumbrante. A palheta de cores privilegia os vermelhos, verdes e amarelos-ouro. A natureza luxuriante da Polinésia fornece um pano de fundo extraordinário, que com frequência assume o primeiro plano. Exemplo disso é a sequência arrebatadora em que uma frota de barcos surfa em ondas gigantes. Serra não poupa recursos para exibir essas paisagens de todos os ângulos possíveis. O Oceano Pacífico embala a ficção de Pacifiction como uma fera rondando um punhado de fantasmas.
>> Pacifiction está na plataforma Mubi.

