Bonjour, Tristesse

FOLHAS DE OUTONO

por Sérgio Moriconi

Último longa-metragem do finlandês Aki Kaurismäki, Folhas de Outono foi o primeiro filme visto no Festival de Cannes deste ano a fazer referência à invasão russa na Ucrânia. Dadas as conflituosas relações históricas entre o país natal do diretor e a Rússia, ficamos imaginando que se trata de um filme político. A bem da verdade, toda obra de Kaurismäki é também política e é também sobre muitas outras coisas. É verdade que muitos de seus trabalhos mais recentes contam com a presença de migrantes e refugiados. Mas Kaurismäki nunca aborda esses temas de uma forma simples e direta. Ele é um dos diretores que fazem valer a máxima cinematográfica segundo a qual “forma é conteúdo”. Neste melodrama seco como o Saara, novamente estão presentes as cores fortes hiperrealistas, o laconismo excêntrico e cômico dos diálogos e os personagens melancólicos e solitários cujas situações nos remetem a quadros do pintor norte-americano Edward Hopper.

Em Folhas de Outono, mais uma vez as músicas comentam várias das situações do filme, entre elas Les Feuilles Mortes, letra do poeta Jacques Prévert, música de Joseph Kosma, que parece fazer referência, embora de forma paradoxal, ao próprio título da obra. Paradoxal porque os versos são incoerentes com o desenlace do filme. Kaurismäki gosta disso. Dou como exemplo semelhante um verso do artista argentino Melingo. Numa de suas músicas, ele diz “ter encontrado o amor numa noite sem lua”. Melingo subverte aqui o sentido natural e clichê da lógica poética romântica, mais ou menos como Lewis Carroll faz em Alice no País das Maravilhas. O mesmo ocorre com várias das interações românticas entre as personagens de Ansa (Alma Poysti) e Holappa (Jussi Vatanen), dois corações partidos pela solidão e pela “quase” pobreza. Sim, quase pobreza, afinal de contas, mesmo que de forma intermitente, eles têm empregos. Ansa é repositora de produtos em um supermercado. Holappa trabalha na construção civil. Ele (diversas vezes) e ela são demitidos de seus respectivos trabalhos por distintas razões. Ele porque bebe em serviço. Ela porque é perseguida por um funcionário que não gosta dela e a acusa de levar para casa produtos com a taxa de validade vencida, produtos que de todo modo teriam de ser jogados fora.

Kaurismäki mostra a crueza nas relações de trabalho no sistema capitalista. A desumanidade, frieza e perversidade dos patrões. O diretor é solidário com a classe trabalhadora, com os desvalidos e outsiders. Mas vejam, ele se refere a um país como a Finlândia, cujo IDH é superior à maioria dos países ricos europeus. Todavia, é bom lembrar, nem sempre foi assim. Antes de se tornar rica, riquíssima, como num passe de mágica, o país sofreu um atroz e longo período de fome. O processo rápido de riqueza trouxe junto inúmeros desajustes entre os indivíduos, especialmente o alto consumo de álcool. É mais ou menos o que aconteceu com a Suécia. Em Folhas de Outono, Holappa, lembramos, é demitido porque bebe em serviço. Ansa, não. Sua tristeza tem outra origem. Seria uma consequência das notícias que recebe diariamente no seu rádio sobre o conflito na Ucrânia? Não, não. Há aspectos singulares na Finlândia, país que tinha uma parcela significativa da população simpática ao comunismo e que teve que se adaptar rápida e dolorosamente a uma economia de mercado. Uma das consequências disso foi a alta taxa de suicídios, duas vezes maior do que a de países como os Estados Unidos.

Kaurismäki nos mostra que a origem profunda dos transtornos – ou do mal estar existencial – de Ansa e Holappa está na alienação do trabalho, no tedioso e monótono cotidiano das funções laborais mecânicas, repetitivas. A origem da preocupação e interesse do realizador em dramatizar esse assunto pode muito bem estar na profunda crise econômica sofrida pela Finlândia nos anos 1990. Nesta década, meio milhão de pessoas perderam seus empregos. A Finlândia, vale notar, tem escassos cinco milhões de habitantes. Tocado por esta situação econômica, percebida premonitoriamente alguns anos antes, Kaurismäki produz o que se convencionou chamar de Finland Trilogy, ou Trilogia do Proletariado, também conhecida como a “trilogia dos desvalidos”, composta por Ariel (1988), A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforo (1990) e Nuvens Passageiras (1996). São três farsas social-realistas, em que Kaurismäki deita seu olhar sobre os párias da classe trabalhadora. Um olhar, como sempre, enviesadamente crítico, com um humor melancólico, deslocado, insólito. Todos esses aspectos temáticos e estéticos estão também presentes de forma fina e sutil em Folhas de Outono.

Apesar da aparente frieza glacial dos filmes de Kaurismäki, e nisso consiste muito do seu charme, há muito humor em Folhas de Outono, do mesmo modo que em toda a sua obra. Algumas cenas são sublimes, tocantes, como a do jantar a dois, as sequências no karaokê e a do cinema. Existe no filme uma grande similitude entre Ansa, Holappa, seus amigos e mesmo desconhecidos. Eles são “natureza-morta” viva e prenhe de sentido –, com o perdão do disparate. Eles são gente “pequena” e modesta, gente de diminuta ambição, gente crédula e ingênua. Não há nada de depreciativo na adjetivação. Vejam um dos amigos mais próximos de Holappa. Ele desafina no karaokê, diz que cantou bem, os amigos concordam, ele espera ser descoberto por algum empresário da música! Como já dito, são gente “invisível”, simples, subterrânea, para fazer aqui alusão a Dostoievski, escritor de referência para o diretor. Kaurismäki queria ser escritor antes de fazer cinema. Seu debut como cineasta foi justamente uma adaptação de Crime e Castigo ambientada em Helsinque. De sua parte, Kaurismäki povoa seus filmes com lacônicos e espartanos anjos caídos. Zumbis líricos, metaforizados na cena em que Ansa e Holappa vão ao cinema ver Os Mortos Não Morrem, de Jim Jarmusch. O diretor cult norte-americano é um fã de Kaurismäki, com quem compartilha o mesmo sarcasmo pop, pueril e deslocado. Kaurismäki também é cult e admira Jarmusch.

Na saída do cinema, diante de cartazes de filmes de Bresson e Godard, Ansa e Holappa comentam que gostaram do que viram. Ambos os diretores são outras referências importantes para o finlandês. Na juventude, os irmãos Kaurismäki, Mika e Aki, foram grandes cinéfilos. Assistiam diariamente de cinco a seis filmes no Finnish Film Archive. Os dois tinham grande admiração por Jean-Luc Godard, Yasujiro Ozu e pelo filme noir norte-americano. Em 1980, os irmãos criaram a própria produtora cinematográfica, a “Villealfa”, batizada em homenagem a Alphaville, de Godard. Robert Bresson é mais uma grande referência. Ela está em toda parte nos filmes de Aki, no minimalismo dramatúrgico, no fatalismo dos tipos humanos, nas inserções deslocadas dos planos de detalhes. Mas, ao contrário do destino irremediável das personagens de Bresson, em Kaurismäki eles mudam uma sina que pareceria inexorável. Holappa muda. Ansa muda. No drama humanista e risível de Folhas de Outono a esplêndida cena final ratifica Lennon e McCartney ao dizer singelamente “all you need is love, love is all you need”.

Sérgio Moriconi


 

Como contraponto ao texto do Sérgio, publico meu curto comentário, já postado nas redes sociais:

Tudo o que sempre faltou nos filmes de Aki Kaurismäki foi glamour, naturalismo, gente rica e feliz. Seus personagens são geralmente seres sorumbáticos, inexpressivos, pobres e desafinados. Em Folhas de Outono (Kuolleet lehdet), o menos jururu é a cachorrinha vira-lata que entra no filme ali pela metade. O casal central circula, em separado, por bares melancólicos e empregos geridos por patrões horrorosos.

Ansa (Alma Pöysti) e Hollapa (Jussi Vatanen) se entreolham pela primeira vez num karaokê de quinta. O esboço de romance é atrapalhado pela inércia de ambos, além de um número de telefone perdido, garrafas de vodka a mais, um mal-entendido, um acidente. Eles se desencontram em meio a notícias sobre a guerra na Ucrânia e clichês românticos desajeitados (como um rosto na vidraça molhado pela chuva para lamentar um encontro frustrado). Cartazes de filmes europeus abundam na cenografia e canções tristonhas se chocam com cenários urbanos banais.

Como uma espécie de Ozu na pasmaceira finlandesa, Kaurismäki redobra sua aposta numa singeleza desconcertante. O humor, como sempre, vem da forma invariavelmente indolente com que são ditos elogios, galanteios e ofensas.

Filme bastante menor do diretor, Folhas de Outono ganhou o Prêmio do Júri em Cannes. Não vi qualidades para tanto.

3 comentários sobre “Bonjour, Tristesse

  1. Olá, Sr. Sérgio Moriconi,

    Primeiramente, parabéns pela ótima crítica.

    Eu gostaria de saber se você pode me ajudar: estou tentando descobrir o nome da música tocada mais pro final do filme, num bar, por uma banda formada por duas garotas locais, uma tocando guitarra, e a outra teclado, sendo uma delas loira de olhos azuis.

    Tentei descobrir o nome usando o “Shazam” durante o filme mas ele detectou o nome errado.

    Obrigado!!

    • Olá Marcelo, muito obrigado pelo seu comentário. A banda finlandesa que toca no filme se chama Maustetytöt. Elas são muito legais. Grande abraço. Sérgio

  2. Pingback: The aesthetics of the absurd and love’s profane mess in Kaurismaki’s “Fallen Leaves” (2023) – A CASA DE VIDRO.COM

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