Um Moretti para apreciar com moderação

O MELHOR ESTÁ POR VIR
(Não confundir com o filme francês homônimo no Brasil, lançado em 2019)

Nanni Moretti merece um pouco da nossa complacência para relevar a fase menor em que se encontra ultimamente. Ao contrário da crítica internacional, a brasileira tem sido especialmente complacente. Em O Melhor Está por Vir (Il Sol dell’Avvenire), mais uma vez Moretti cria um alterego em crise. Giovanni é um diretor empenhado em concluir as filmagens de um drama passado em 1956. Após a invasão da Hungria pela URSS, os comunistas italianos exigem que o PCI rompa com os soviéticos em nome da liberdade. No centro da trama dentro do filme está um diretor do l”Unità (Silvio Orlando), jornal oficial do PCI.

Como quase sempre, o roteiro de Moretti é digressivo, cheio de bifurcações que ora se perdem, ora se encontram de raspão. Giovanni não tem dinheiro para terminar o filme, seus atores teimam em improvisar a sua revelia, objetos anacrônicos aparecem no set, sua mulher e produtora (Margherita Buy) está produzindo um filme de outro diretor pela primeira vez e ainda quer se separar dele depois de 40 anos juntos. Para completar, a filha está namorando o idoso embaixador da Polônia e faltam dois elefantes para a cena do circo húngaro que chega a Roma.

Seria talvez o Oito e Meio de Moretti, apesar das ambições infinitamente menores. O ranzinza Giovanni cita diversos outros filmes e tem a mania de interferir na filmagem dos outros e até na realidade, como se tudo devesse seguir o seu método ritualístico e fechado em si. Isso gera algumas cenas razoavelmente divertidas, embora a fala cada vez mais arrastada de Moretti retarde o ritmo e dissolva um tanto do humor potencial. Irresistível mesmo só a sequência em que ele e a mulher tentam vender o projeto para a Netflix, cujos representantes insistem nas suas normas de sucesso para os filmes passarem em “190 países”. É de rolar de rir.

No mais, O Melhor Está por Vir tenta passar uma ideia de nostalgia a respeito de um cinema autoral à moda antiga, mas que precisa ser viabilizado por esquemas atuais. A forma como Giovanni readapta suas ideias em relação ao desfecho do filme-dentro-do-filme tem a gentileza característica de Moretti, mas não a sua melhor verve criativa. Ele assume um papel cômico talvez mais carregado em pantomima do que nunca: canta, nada, joga bola, faz caretas. Se formos complacentes, podemos até apreciar com moderação.

>> O Melhor Está por Vir está nos cinemas.

5 comentários sobre “Um Moretti para apreciar com moderação

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