Esses michês chineses

MONEYBOYS

Moneyboys é como os garotos de programa são chamados na China. O filme de C. B. Yi conta a história de Liang Fei, rapaz que trabalha como michê numa grande cidade chinesa. Assim ele ajuda a sustentar a família que vive numa aldeia, condena seu modo de vida e o pressiona para se casar.

O conservadorismo da China rural e a modernidade e violência da metrópole vão provocar uma ruptura na vida de Fei, que se afasta da família e tenta purgar uma culpa mediante o relacionamento com um amigo de infância que chega da aldeia para seguir os seus passos. Fei se divide entre o respeito aos antepassados, uma adesão relutante aos costumes da prostituição e a procura do amor. A certa altura, discute-se em que consiste vender o corpo. Até que ponto qualquer trabalho, ou mesmo uma dança na rua seriam uma forma de botar o corpo à venda?

Moneyboys é curioso na medida em que descortina esse panorama de um contexto que pouco conhecemos na intimidade. O diretor C.B. Yi, nascido na China e formado em cinema na Áustria, foi aluno de Michael Haneke e se inspira em Hou Hsiao Sien. Mas seu estilo se aproxima mais do slow film que dessas matrizes. Moneyboys é deliberadamente lento, com atuações hieráticas só quebradas nos momentos de violência e de dança em clubes. Visualmente, tem personalidade e um olhar interessado na arquitetura urbana chinesa, muito embora o filme tenha sido rodado em Taiwan por razões de censura. Mesmo sem qualquer nudez, é bastante direto nas cenas de sexo.

O que me impediu de apreciar mais o filme foi a opacidade do personagem central. Embora estejam razoavelmente claros os motivos que levam Fei a um comportamento depressivo, sua apatia permanente cria um vácuo no coração do filme. Um pouco de influência de Wong Kar-Wai talvez fizesse bem a C.B. Yi. Afora isso, gastei muito da minha energia perceptiva na identificação de quem é quem entre tantos personagens coadjuvantes.

>> Moneyboys está nos cinemas.

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