Um século de documentários brasileiros

O livro de Darlene J. Sadlier está a exigir uma imprescindível tradução para o português.

Quem estuda a sério o Brasil, mais cedo ou mais tarde, vai passar pelos livros de Darlene J. Sadlier. A professora da Universidade de Indiana em Bloomington é uma das mais devotadas pesquisadoras de temas brasileiros, portugueses e latino-americanos dos Estados Unidos. Já traduzidos para o português ela tem Nelson Pereira dos Santos, amplo estudo da obra do cineasta, lançado aqui em 2012; Brasil Imaginado – de 1500 até o Presente; e A Diáspora em Língua Portuguesa, este editado em Portugal. Seus outros livros tratam de Fernando Pessoa, Cecília Meireles, escritoras portuguesas pós-revolucionárias, melodramas latino-americanos, a política de boa vizinhança dos EUA na América Latina e o filme cubano Memórias do Subdesenvolvimento.

À espera de uma imprescindível tradução para o português está A Century of Brazilian Documentary Film – From Nationalism to Protest, publicado em 2022 pela editora da Universidade do Texas. Ali Darlene coloca sua paixão pela pesquisa e sua escrita objetiva e atraente a serviço de uma história do documentário brasileiro.

Mais exato seria falar de uma antologia. Não se trata de uma abordagem panorâmica que pretendesse cobrir todos os nexos históricos entre 1922 e 2022. Em vez disso, a autora seleciona filmes e grupos de filmes que ilustram momentos e tendências marcantes, deixando que a sucessão dos capítulos, em odem cronológica, crie uma apreensão de percurso.

As 22 páginas de notas e as dez de bibliografia dão uma ideia da extensão da pesquisa em livros, documentos e instituições do Brasil e do exterior. Até o seminário Na Real_Virtual, do qual participei como curador e mediador junto a Bebeto Abrantes em 2020 e 2021, foi arrolado entre as fontes de estudo. Tudo isso se reflete na qualidade da contextualização que Darlene oferece para cada documentário analisado, juntamente com a descrição criteriosa e perceptiva da obra.

No País das Amazonas, de Silvino Santos, e São Paulo – Sinfonia da Metrópole, de Adalberto Kemeny e Rodolfo Lustig, dão a partida na viagem, já denotando o interesse de Darlene por investigar as estratégias dos documentaristas ao abordarem o campo e a cidade. Percebe-se logo a forma minuciosa, atraente e também crítica com que ela apresenta os filmes. Exemplo disso são os paralelos e diferenças que estabelece entre o clássico paulista e as demais sinfonias de cidades dos anos 1920, bem como a atenção para o discurso direitista implicado nas cartelas do filme.

A produção do Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE) e do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo Vargas é bem sintetizada, incluindo dados sobre a circulação internacional de filmes de Humberto Mauro nesse período. O engajamento de Darlene com a matéria dos documentários pode ser sentido pelo seu espanto ao descrever as cenas perturbadoras de preparação da vacina no curta Febre Amarela.

As filmagens dos cangaceiros por Benjamin Abraão e os documentários da Vera Cruz encerram a fase “antiga”, dando lugar às obras pioneiras do Cinema Novo: Aruanda, de Linduarte Noronha, e Arraial do Cabo, de Paulo César Saraceni e Mário Carneiro. Da Caravana Farkas ela se detém em saborosas descrições analíticas de Subterrâneos do Futebol (Maurice Capovilla), Viramundo (Geraldo Sarno), Maioria Absoluta (Leon Hirszman), O Circo e Opinião Pública (Arnaldo Jabor). É admirável sua atenção para com o tantas vezes esquecido programa A Hora da Notícia, comandado por João Batista de Andrade.

Embora se assuste com os atrevimentos do diretor, Darlene situa muito bem o curta Di-Glauber na obra de Glauber Rocha. Dedica bom espaço aos clássicos Os Anos JK e Jango, de Silvio Tendler. Na relativamente curta abordagem de Cabra Marcado para Morrer, ela inclui ótimas referências à situação da terra nos anos 1960. O mesmo se dá em relação à Amazônia quando trata do seminal Iracema – Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna.

A descrição detalhada de Ilha das Flores recupera o humor e a inteligência do curta de Jorge Furtado. No capítulo sobre documentário e identidade, Darlene escolheu outro curta, Mato Eles?, de Sérgio Bianchi, e os longas de Sylvio Back República Guarani e Yndio do Brasil, questionando neste último a noção de cinema desideologizado do diretor catarinense. Vincent Carelli e a Vídeo nas Aldeias têm seu amplo trabalho exemplificado por Corumbiara, a série Índios do Brasil e As Hipermulheres. Sobre a representação do negro na mídia, o escolhido foi A Negação do Brasil, de Joel Zito Araújo, muito bem introduzido por uma notável explanação sobre o assunto.

Darlene lança mão do termo “documentário de busca”, cunhado por Jean-Claude Bernardet, para analisar 33, de Kiko Goifman,e Um Passaporte Húngaro, de Sandra Kogut. Ao adentrar no tema dos documentários biográficos, faz descrições penetrantes de Bananas is My Business (Helena Solberg), Nelson Freire (João Moreira Salles), Onde a Terra Acaba (Mário Peixoto por Sérgio Machado), Cidadão Boilesen (Chaim Litewski) e Estamira (Marcos Prado). Quanto a este último, coloca em discussão os questionamentos éticos feitos ao filme.

O conceito de biografia é elastecido a fim de abarcar A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos, Ônibus 174, de José Padilha, e Cinema Novo, de Eryk Rocha. Embora não seja frequente em manifestações críticas pontuais, Darlene permite-se apontar as ausências de Helena Solberg, O Cangaceiro e O Pagador de Promessas no filme-coletânea de Eryk.

Certas eleições indicam, para além da qualidade, uma opção por filmes que inventariam questões brasileiras de interesse universal e, por vezes, especialmente caras a um público estrangeiro. Este é o caso de Bananas is My Business, Christo Redemptor, de Bel Noronha, Filme Paisagem – Um Olhar sobre Roberto Burle Marx, de João Vargas Penna, e Dzi Croquettes, de Raphael Alvarez e Tatiana Issa.

A aproximação entre Brasília: Contradições de uma Cidade Nova, de Joaquim Pedro de Andrade, e A Cidade é uma Só?, de Adirley Queirós, fala do profundo domínio de Darlene J. Sadlier sobre as questões que deram origem à “Novacap” brasileira e ainda repercutem por ali. Num movimento inesperado, ela aponta HU, o documentário de Pedro Urano sobre o Hospital Universitário da UFRJ, como uma espécie de símbolo da decadência do Rio décadas depois de deixar de ser a capital do país. Recife Frio, por sua vez, é brindado com uma dissecação apurada das referências utilizadas por Kleber Mendonça Filho em sua irresistível fantasia urbana.

Voltando-se para filmes mais recentes em ambientes rurais, o livro destaca O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho, e evoca Guimarães Rosa ao se debruçar sobre Aboio, de Marília Rocha. A respeito de Seca, de Maria Augusta Ramos, Darlene valoriza belamente detalhes da ação visual e sonora do filme. O volume se encerra com o capítulo “Um país em crise”, no qual a autora analisa conjuntamente os incontornáveis O Processo, de Maria Augusta Ramos, e Democracia em Vertigem, de Petra Costa.

A opção por eleger e se ater a uma seleção de filmes exemplares estaria sempre sujeita a eventuais lacunas. Em contrapartida, Darlene fornece um manancial de informações de contexto que raramente se vê no que já foi publicado sobre a história do documentário brasileiro. Some-se a isso a limpidez do texto, alheio a cacoetes acadêmicos, para termos uma peça historiográfica da mais alta qualidade. Os leitores brasileiros bem merecem sua publicação por aqui.

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