Imigrantes no crepúsculo de uma rua

RUA  AURORA – REFÚGIO DE TODOS OS MUNDOS 

Contrastando com seu nome alvissareiro e um passado afluente, a Rua Aurora, na região central de São Paulo, é hoje um cenário de ocaso e decadência. Prédios dilapidados, velhos cinemas em ruínas, ruas imundas, muitos moradores de rua. Mas, mesmo ali, medram formas de vida alternativas, muitas delas de imigrantes de outros estados e países. No encalço desses personagens saíram os pesquisadores Guilherme César e João Paulo Soares para o documentário Rua Aurora, Refúgio de Todos os Mundos.

Dirigido pelo pernambucano Camilo Cavalcante, o filme descortina um universo de sonhos, frustrações e voltas por cima, numa linha próxima dos documentários de Eduardo Coutinho. Carismas bastante peculiares se sucedem na tela, como um velho alfaiate nostálgico do tempo dos inferninhos ou um auxiliar de cozinha que faz shows drag com o pseudônimo pseudo-indiano de Naguesca. Exemplos contrastantes são o jovem jamaicano que melhorou de vida em São Paulo e o doutor em Letras cearense que acabou se virando com reciclagem. Uma mulher trans que trocou os programas pela igreja evangélica e um ex-fabricante de capas para vídeos piratas que se lançou como cantor trazem diferentes coloridos para o elenco.

São nordestinos, sulinos, mineiros e africanos que se integraram à paisagem paulistana nos mais diferentes ofícios. Não faltam as antigas personalidades da Boca do Lixo, representadas pelo gaúcho Virgílio Roveda, ex-assistente de José Mojica Marins, Ozualdo Candeias e Rogério Sganzerla, e pela atriz Débora Muniz, vinda de Pernambuco para as pornochanchadas da Boca. Assim Camilo introduz o crepúsculo de um tipo de cinema no painel melancólico da Rua Aurora.

O filme não tem grandes invenções, nem se aprofunda muito nos casos que aborda. Enfileira os personagens e escaneia uma paisagem urbana marcada pelo abandono e pelas irrupções de violência. De qualquer forma, eu me vi interessado por aquele pequeno mundo cheio de surpresas e disparidades, onde um certo Cine Kratos apresenta sexo explícito na tela e ao vivo, e um saxofonista maranhense toca jazz na noite taciturna.

>> Rua Aurora, Refúgio de Todos os Mundos está em cartaz em São Paulo.

 

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