APOLO
Entre os filmes brasileiros recentes sobre pessoas transgênero, Apolo se destaca amplamente pelo teor de afeto e riqueza visual posto em sua realização. Há um misto de intimidade e capricho raro de se ver em documentários montados a partir de um acompanhamento temporal, o que eu gosto de chamar de documentário de processo.
Apolo ganhou o prêmio de melhor documentário na Première Brasil do Festival do Rio, além do prêmio do público e de uma menção honrosa do júri no Mix Brasil.
A atriz e agora cineasta Tainá Müller, juntamente com a cantatriz Isis Broken, registraram o processo de gestação do menino Apolo, filho de Isis e do músico Lourenzo Gabriel. Não foi uma gestação comum. Em período de pandemia da Covid-19, o casal precisou enfrentar o despreparo e mesmo a transfobia no seu meio. Ambos são trans. Isis era Pedro em sua Aracaju natal. Lourenzo, de nome artístico Aqualien, era Larissa na infância em Guarujá. Conheceram-se e enamoraram-se. Lourenzo foi para Aracaju.
Embora tomasse hormônios havia três anos, Lourenzo engravidou. A capital sergipana não estava apta a compreender um pai grávido de uma mãe trans. O casal mudou-se para São Paulo em busca de maior acolhimento e de um pré-natal especializado. Pelo que se vê no filme, encontrou na figura do ginecologista Emmanuel Nasser, especialista em cuidados com a população LGBTQIA+. A intolerância, porém, os acompanhou. No filme, assistimos a um episódio de rua.
Na contramão do preconceito, Isis e Lourenzo nutrem uma bela relação de carinho e companheirismo, ainda que as questões internas de um casal transcentrado não deixem de aflorar. Uma querela sobre amamentação, por exemplo. Ou sobre como cada um supera suas disforias de gênero (o desconforto psicológico advindo da incongruência entre o gênero de nascimento e o de autopercepção).
Apolo exibe ainda exemplos de aceitação familiar muito naturais, tanto em Sergipe quanto em São Paulo. Resultado, sem dúvida, da firmeza e resiliência com que Isis e Lourenzo conduziram suas respectivas identidades. Nisso vai um bocado de sinceridade da parte deles, como na cena em que Isis contesta um clichê da transgeneridade: “Eu não nasci no corpo errado, nasci no corpo certíssimo”.
O documentário foi concebido como uma carta ao bebê em gestação. Uma carta de amor e esclarecimento que parece se dirigir a todos nós. Uma carta pedagógica para uma sociedade que precisa assimilar outras formas de composição familiar que coloquem a felicidade acima das convenções. Nesse sentido, Apolo é um filme cívico.
>> Apolo está nos cinemas.


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