Projeção digital: o debate continua

Após a divulgação da carta aberta de críticos brasileiros aos responsáveis pelas más condições do cinema digital entre nós, a empresa responsável pelo sistema Rain respondeu minimizando o assunto, como se ele se restringisse apenas a mostras e festivais. Leia no blog do Zanin.

Em comentário enviado diretamente a mim, a respeito do post “O cinema digital na berlinda” (veja mais abaixo), Luiz Gonzaga Assis de Luca, diretor de relações institucionais do Grupo Severiano Ribeiro e vice-presidente da Federação Nacional dos exibidores, fez uma minuciosa análise da situação. “Cinema digital está se convertendo em cinema de baixa qualidade por aqui, quando a proposição é de se ter a melhor qualidade, com menos manipulação dos originais e com a garantia de se ter uma cópia absolutamente igual ao original.”, afirma.

Luiz Gonzaga defende o padrão DCI, mais dispendioso, mas capaz de preservar a qualidade e o formato das cópias 35mm. Quanto à Rain Networks, reconhece a maior adequação à nossa realidade, mas explica os inconvenientes de ter que fazer ajustes “artesanais” para cada filme exibido. Aí é que os descalabros acontecem entre os originais e o que se vê nas telas.

“A única questão que posso assegurar pela minha experiência de quase 35 anos atuando em cinema, a maior parte deles trabalhando com tecnologia, é que cinema digital é bom”, garante. “Na pior das hipóteses, equipara ao 35mm. Na melhor das hipóteses, é que cria condições ímpares de exibir conteúdos que não poderiam ser exibidos em cinema. É só fazer direito o que tem que ser feito. O que é fazer direito? É seguir as normas técnicas.”

 

A íntegra do comentário de Luiz Gonzaga Assis de Luca:

Carlos: Antes de qualquer manifestação, agradeço o elogioso comentário sobre o meu livro “A hora do cinema digital – Democratização e globalização do audiovisual” e, mais intensamente, àqueles destinados a minha pessoa.

Quanto à “má notícia”, o que tenho a expor é que desde a publicação de “Cinema Digital – Um novo cinema?”, há cinco anos, tenho me contorcido para não ser ácido, com o que ouvi em palestras, debates, seminários, etc. No livro recentemente lançado, deixo escapar algumas poucas observações sobre o assunto, em especial, quando afirmo que a discussão do cinema digital no Brasil perdeu os rumos, “indo parar num cesto que mistura tecnologia, ideologia e esperteza empresarial”.

Por que tantos cuidados em abordar um tema que envolve a viabilidade econômica, a qualidade da exibição e a massificação do acesso da população aos cinemas? No livro, tento propor a diversidade de modelos de exibição, sendo que grande parte dos itens estão envolvidos com a questão qualitativa. O padrão DCI é perfeito, equivale ao 35 mm e, tenho ouvido de muitos especialistas que entendem também do 35mm, que a projeção digital é superior ao filme. Basta ver que as convenções de exibição como o SHOWEST e o SHOWEAST já não têm projeções em outros sistemas que não o digital. Mesmo não me propondo enquanto advogado do padrão DCI, afirmo que para se assistir os filmes dos grandes estúdios em cinemas, não há como adotar outro padrão que não seja o que eles decidiram como o ideal.

As projeções com problemas de som e imagem são velhas parceiras do cinema no Brasil. Para ser bem franco, também estão presentes na produção. É um problema cultural curiosamente ligado à arrogância do ignorante, de quem não domina a tecnologia. Basta ver a sonorização dos filmes e das salas de exibição, que beiravam até quinze anos atrás o absurdo. Mais absurdo ainda, quando se verifica que foi necessário que a UCI e a CINEMARK chegassem, para que se tomasse vergonha e se fizessem cinemas decentes como indicavam as normas técnicas, inclusive as da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

NORMAS TÉCNICAS, estas são as palavras mais negligenciadas na cinematografia brasileira.

O DCI nada mais foi que uma comissão de técnicos, financiados pelos estúdios norte-americanos que se reuniram, e que, coletando as normas técnicas da I.S.O., ANSI, IEC e SMPTE, (enfim, um monte de institutos de pesquisa e certificação) acerca de padrões de imagem, som, processamento e transmissão de dados, criou um calhamaço onde se define o que é cada coisa. Se você quer saber como deverá ser feita a senha de acesso, está lá. Se você quiser saber como é a compressão da imagem, também está. Se é sobre o som, está. Se é sobre quem pode acessar o que no servidor ou a proporção de tela, também. Está tudo lá.

Então, você pode ter certeza: vai ser muito difícil você ver um filme em más condições no padrão DCI.

Qual é o inconveniente do DCI? Apenas um, que é suficiente para nos colocar para pensar. Ter este padrão sem erros, que garante a melhor projeção e som, custa caro e os estúdios não aceitam conversar em ter outro padrão.

O bacana na iniciativa da RAIN NETWORKS é oferecer alternativas mais concretas, mais reais à nossa realidade. Não se baseia no cinema dos estúdios majors, mas se propõe para os cinemas “alternativos” que não permitem os investimentos necessários para exibir no padrão superior. Oferece-se um padrão razoável que, por mais que se queira, não terá nunca a qualidade do outro. Numa analogia, é impossível que um automóvel 75% mais barato que outro, tenha as suas mesmas características. Os desempenhos, o conforto e o luxo, obviamente, serão diferentes. Não há mágica. Há adequação.

O lado ruim da moeda é que nas adequações, exige-se a renúncia a diversos requisitos, como foi o caso de se exibir em 16:9, um filme realizado em 2.35:1.

Tinha solução? Tinha. Não se podia “encher a tela”. Haveria largas barras em cima e em baixo da imagem projetada. Foi o dilema da televisão e do homevideo brasileiros que se regendo pelo absurdo, preferiram encher a tela, cortando as imagens. A cultura de “cortar imagens laterais” formou-se e aí está o resultado. Uma obra do perfeccionista Resnais projetada com cortes grotescos na imagem.

Daí vem outro problema. Quem disse ao técnico que fez o “encoding” quais são os critérios técnicos em que deve trabalhar? Foi treinado por outro, que já havia sido treinado por outro, que aprendeu com aquele que fez cortes panorâmicos para a televisão. Nada está registrado, nada é divulgado.

Certa vez, na lista do CINEMABRASIL, coloquei uma mensagem que era necessário criar padrões técnicos para o “cinema alternativo ao DCI”, que fossem divulgados os padrões e que eles fossem adotados por todos.

O grande sucesso do 35mm foi exatamente a padronização. Não é possível que um distribuidor chegue aos cinemas com cópias 32,5mm ou 63,3mm. O som deve estar 21 quadros à frente da imagem e não 31 ou 20 quadros. Não é o que temos visto nos “padrões alternativos” da exibição digital.

Para piorar o ambiente, os projetores do DCI têm ajustes padronizados e precisos, como aqueles que se referem à colormetria, ou seja, os padrões de cores e as temperaturas de luz. Esta é uma das razões por que custam tão caros. Os projetores mais simples possuem critérios mais elásticos, não precisos e, por isso, precisam ser permanentemente ajustados conforme o conteúdo que é exibido. Aliás, o mesmo tem que ser feito para o “encoding”.

Não havendo padrões universais, então é necessário que se tenha um artesão fazendo a medição para a masterização e para o “encoding”. Os dois trabalhos são artesanais e exigem dedicação contínua, fazendo com que técnicos tenham que estar ajustando os equipamentos a toda hora. Trabalho artesanal em tecnologia custa caro.

As discussões sobre a qualidade do cinema digital no Brasil já criou preocupações em distribuidores e fabricantes de equipamentos no exterior. Cinema digital está se convertendo em cinema de baixa qualidade por aqui, quando a proposição é de se ter a melhor qualidade, com menos manipulação dos originais e com a garantia de se ter uma cópia absolutamente igual ao original. O digital cria a possibilidade de não se ter como identificar o original e a cópia.

É muito complexa a situação que estamos discutindo. Há três anos atrás, foi capa do Programa da Folha de São Paulo. A única questão que posso assegurar pela minha experiência de quase 35 anos atuando em cinema, a maior parte deles trabalhando com tecnologia, é que cinema digital é bom. Na pior das hipóteses, equipara ao 35mm. Na melhor das hipóteses, é que cria condições ímpares de exibir conteúdos que não poderiam ser exibidos em cinema.

É só fazer direito o que tem que ser feito. O que é fazer direito? É seguir as normas técnicas.

Luiz Gonzaga Assis de Luca

2 comentários sobre “Projeção digital: o debate continua

  1. Me formei com o Luiz Gonzaga e gostaria muito de falar com ele, se voce puder me ajudar seria ótimo

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