Expressões amazônicas

o areal

Um areal no Pará, uma comunidade de quilombolas em Marajó e um vendedor de picolés de Manaus valeram os três prêmos Muiraquitã da IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico, encerrada ontem à noite em Manaus. O Areal (foto acima), doc exibido na Mostra Meio-ambiente do último Festival do Rio, foi o que mais agradou o júri, composto pelo escritor Marcio Souza, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, a pesquisadora Stella Oswaldo Cruz Penido e este escriba. Abaixo, transcrevo uma microresenha do filme que eu já havia feito aqui no blog: 

O chileno Sebastián Sepúlveda, ex-aluno da Escola de Cinema de Cuba, estreia na direção com este média rodado na Amazônia paraense. Sem pressa e com bom senso de observação, retrata o ritmo da vida numa comunidade de descendentes de escravos. Isolados, eles se cercam de uma mitologia cheia de pássaros encantados, lobisomens, sereias d’água, Matinta Pereira. Os relatos são bonitos e divertidos. O filme demora um pouco a instalar sua questão central: uma grande ponte está sendo construída ali perto, e a especulação se aproxima do areal supostamente mágico que os separa do resto do mundo. A lembrança de Arraial do Cabo se faz inevitável. Após um salto de três anos, finalmente o tema se apresenta: nem a aproximação do progresso, nem a chegada dos evangélicos pode enterrar as crendices, capazes de gerar tanto medo quanto alegria. Nesse caso, pelo menos, a cultura parece mais forte que o tempo.

O segundo lugar ficou com Salvaterra, Terra de Negro, de Priscilla Brasil, que eu comentei no post anterior (abaixo). O terceiro prêmio coube a Picolé do Aranha, de Anderson Mendes, doc simpático e acridoce sobre um homem que vende picolés nas ruas calorentas de Manaus vestido como o Homem-Aranha. O que resgata o filme da vala comum dos retratos engraçadinhos é a figura de uma jovem psicóloga que oferece interpretações naif da história do Aranha. Sobre ela, o roteiro reserva uma ótima surpresa para o final.

Eu particularmente gostei muito de Roraimeira – Expressão Amazônica, um DOCTV assinado por Thiago Briglia. Ele descortina um movimento de arte pop-regionalista nascido com três compositores de Roraima e que já se estendeu às artes plásticas e à dança do estado. A música de Zeca Preto, Neuber Uchôa e Eliakin Rufino tem força e qualidade, mesclando sonoridades hip hop, indígenas e caribenhas. O doc tira partido da vocação performática do trio e relaciona os músicos com a paisagem, a culinária e várias referências culturais de Roraima.

Assisti também na mostra a um novo média-metragem de Jorge Bodanzky, De Volta ao Terceiro Milênio. Como o nome indica, é uma retomada do impactante doc que ele fez em 1979 com o folclórico Senador Evandro Carreira. Em Terceiro Milênio, Bodanzky documentava uma viagem eleitoral de Carreira pelo Rio Solimões, expondo não só a verve fitzcarraldiana do candidato e uma prática política que mais parecia teatro do absurdo, como também o abandono em que viviam os índios semi-aculturados da região. Nessa volta, o diretor colhe novas frases gongóricas de Carreira (como pedir um golpe militar regional para salvar a Amazônia) e leva o filme de 1979 para uma plateia de índios ticunas já plenamente integrados à sociedade branca. Afora um ou dois comentários reveladores, a oportunidade é aproveitada timidamente. Prevalecem, em quantidade e qualidade, as cenas poderosas de Terceiro Milênio, o primeiro grande filme brasileiro sobre uma campanha eleitoral.

8 comentários sobre “Expressões amazônicas

  1. Caro Carmattos, teu ponto de vista tem lógica, eu entendo. Sim, realmente, a questão do inusitado parece teatro do absurdo, uma campanha política sui generis, mas a intenção era essa. A intenção era tão somente chamar a atenção à problemática amazônica.

  2. O autor do artigo, ao afirmar “uma prática política que mais parecia teatro do absurdo”, demonstra ser totalmente a favor das campanhas estilo curral, onde o candidato, demagogicamente, compra o voto dos eleitores com pequenos agrados e promessas falsas.
    Antes de todo esse movimento ecológico que reverbera mundo à fora, Evandro Carreira já previa as conseqüências da devastação da Amazônia, lutava ativamente pela sua preservação e propunha meios de exploração da floresta sem agredi-la.
    Evandro Carreira teve coragem de peitar multinacionais, nunca se corrompeu, nunca se envolveu em falcatruas e foi pioneiro na luta em defesa da Amazônia no Congresso Nacional.
    O advogado Evandro das Neves Carreira nasceu em Alvarães, município do Amazonas, foi vereador em Manaus, eleito em 1959 e reeleito em 1963 e Senador da República em 1974, tendo exercido o mandato por 8 anos. Amazonólogo, expositor e conferencista sobre a temática amazônica em seminários, ciclos de debates, conferências e simpósios em Universidades, Diretórios Estudantis e outros organismos. Em 1981 proferiu palestras na Escola Superior de Guerra dos E.U.A., National Defense University e National War College – Forte Mc Mer, Washington, D.C.
    A sua principal obra, Recado Amazônico, foi publicada em 10 volumes pelo Senado Federal, onde está inserida suas atividades como Senador da República pelo Amazonas e a genial afirmação que se constituiu um verdadeiro axioma: A Vocação Hidrohelio-Fitozoológica da Amazônia, valendo todos os corolários que decorrem deste axioma, como soem ser as vocações varzeana, ictiológica, ribeirinha, hidroviária, extrativista, fotossintética e pomicultora.
    Naqueles tempos, muitos ignaros o viam da forma que o autor do artigo o vê, mas tudo que ele falou agora se confirma e, de uns 20 poucos anos pra cá, o que mais se vê são políticos levantando a bandeira da ecologia e preservação da Amazônia, contudo, Evandro Carreira foi o primeiro a levantar corajosamente tal bandeira no cenário político nacional, mas é, assim, jocosamente que o autor se refere a um raro político honesto que lutou (e ainda luta) fervorosamente em defesa de nosso maior patrimônio natural, todavia, isto é típico de brasileiro mente pequena, que exalta os expoentes estrangeiros em detrimento dos nacionais, deslumbrando-se com a macaqueação e repudiando a originalidade, desvalorizando os verdadeiros guerreiros e defensores da nação.

    AMAZÔNIA

    Por Evandro Carreira

    Imenso laboratório,
    Onde o informe e o disforme
    Se convulsionam num turbilhão em líquido.

    Afloram vivos
    Em angústia de síntese,
    Em ânsia de análise.

    O ciclo se fecha e garante
    A viagem pelo sidéreo.

    Romper o ciclo é o finito
    Mantê-lo é cavalgar estrelas,

    Na certeza do encontro
    Com o ABSOLUTO.

    • Caro Gilgamesh, seja lá quem você for, minha referência ao então Senador Carreira limita-se ao contexto daquele filme do Bodanzky. Não poderia falar sobre a vida política dele, uma vez que este não é o meu campo. Mas no filme, naquela circunstância, a prática eleitoral dele – como fazer discursos para florestas vazias ou distribuir cartões de visita a índios – soava como teatro do absurdo, pelo inusitado das situações. No mais, reconheço o pioneirismo de Carreira no levantamento da bandeira ecológica com relação à Amazônia.

    • Adriana, se você mora no Rio poderá ver “O Areal” na Mostra do Filme Etnográfico, que começa sexta-feira.

  3. Que rio de histórias, hein?A temática dos documentários/filmes podem ser modismo, no entanto a forma de fazê-los não, pois isso requer mastigação do diretor, sobre a realidade, a ficção que ela insere, a intervenção ou não dele, o papel omisso ou ativo dentro e fora de sua obra, vide Jorge Bodansky ” o real é a minha ficção” , e Valdimir Carvalho ” percebo que todos os meus filmes acaba se formando essa crosta de significações para além do real”. A circunstância de maturação do diretor.

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