Mandela, Médici, Lula

Invictus é um filme caretão, de roteiro didático e soluções simplistas. No fim das contas, se resume a mais um elogio americano da vitória e do emocionalismo como panaceia para divisões e conflitos. Mas, enquanto o assistia, vinham-me à cabeça alguns paralelos que divido aqui com vocês.

Freeman e o "capitão" Dammon, Médici e o capitão Carlos Alberto

Primeiro: O engajamento do Mandela com a seleção de rúgbi de 1994 me lembrou muito o do Garrastazu Médici com a seleção brasileira na Copa de 1970. Claro, o contexto e a causa eram radicalmente diferentes. Médici usou o futebol para dissimular o auge da repressão política e da tortura, pretendendo dar um verniz popular ao governo ditatorial. Mandela, ao contrário, investiu no rúgbi para unificar simbolicamente o país, ainda dividido racialmente na aurora do pós-appartheid.

Mas os métodos eram muito similares. Abrangiam o envolvimento direto com os jogadores – Médici chegou a escalar Dario Peito de Aço –, a presença em estádios, visitas à concentração e principalmente o vínculo da seleção à vigente propaganda do Brasil Grande. Como os negros da África do Sul, a esquerda brasileira fingia torcer contra o escrete canarinho para não jogar água na bacia dos militares.

Embora mencionado em vários filmes, esse episódio ainda não mereceu um tratamento à altura no cinema brasileiro.

Segundo: Mandela é uma unanimidade mundial, a gente sabe. Mesmo assim, Invictus é uma peça de canonização do presidente. Não são poucas as sequências que terminam solenemente com uma frase edificante na boca de Morgan Freeman, na medida para ficar soando na consciência do espectador.

Nesse sentido, é muito mais enaltecedor que Lula, o Filho do Brasil. Mas, vindo da África e da lavra de Clint Eastwood, ninguém questiona isso. Mandela também aparece fazendo política miúda através de um meio não convencional como o esporte. Por aqui, acusou-se o filme de Fábio Barreto de despolitizar Lula, talvez por não tê-lo mostrado lendo Marx (que nunca deve ter lido mesmo) ou costurando altas estratégias num período em que isso ainda não existia.

São dois pesos e duas medidas para se apreciar um filme que fala diretamente a nossa realidade e outro que trata de uma realidade distante e romanceada.

4 comentários sobre “Mandela, Médici, Lula

  1. Gondry? tõ fora!

    Clássicos – pois é, para mim existem os clássicos (com linguagem clássica ou não como no seu excelente exemplo de 8 1/2);
    e existe a linguagem clássica.

    A forma do Eastwood não me parece tão “clássica”, mas mais careta mesmo, por isso gostei do uso do termo “caretão” que eu considerei mais irônico-pejorativo: algo como “comum”, dentro dos cânones tradiconalistas mas sem necessariamente ser uma linguagem ciematograficamente tão importante. Funcional pode ser, “dá certo”, mas é como qualquer coisa mais impessoal de um artesão aplicado e pouco mais do que isso. Às vezes dá mais certo, outras vezes é apenas banal ou bobo ou medíocre-mediano (ou medícore de ruinzinho mesmo).

    Outro dia li sobre uma conversa do André Bazin com o William Wyler em Paris, 1949, discutindo os movimentos de câmera nos filmes dele; assim como o Scorsese declarou uma vez que quando a câmera estava em um determinada posição em certas cenas de certos filmes do Wyler, ele percebia que não poderia haver outra posição em relação às cenas anteriores e seguintes. É uma linguagem “clássica” mas que teve uma criatividade na época e consegue uma permanência, chama a tenção pela beleza estética e funcional como escrita cinematográfica que não percebo em muitos filmes do Eastwood, embora ache que ele persiga essa formatação.

    Mas o que percebo nos ângulos, movimentos de câmera, tomadas de John Ford, Wyler, Billy Wilder – e outros tantos da antiga escola americana – poucos de fato conseguem reproduzir hoje em dia pós-neorealismo, pós-nouvelle vague, pós-tudo…sem cair em clichês de linguagem artesanal. Nada contra particularmente, é uma forma consagrada de comunicação popular, mas daí a merecer deslumbramento… eu não me deslumbro com Eastwood. Posso gostar bastante de “Um mundo perfeito”, “Flags of our Fathers” e outros dele, mas “A Troca”, por exemplo, achei uma lástima completa. Enfim, pãos ou pães? …é questão de opiniães…

  2. Este filme vem sendo considerado pelos fãs do Clint Eastwood-diretor como um momento “menor” na sua filmografia. Minha opinião é que “Invictus” mostra (mais uma vez) quem Eastwood quase sempre é: você escreveu que o filme é “caretão”, mas os exegetas do cineasta dizem que ele é um “clássico”. O termo “clássico” foi banalizado nas locadoras: qualquer filme que seja “antigo” ou “velho” (conotações diferentes, se me faço entender) passou a ser catalogado como “clássico”, incluindo abacaxis que sempre o foram desde o berço e nunca deixaram de ser, mesmo nas revisões mais bizarras que promovem trash movies a obras-primas. “Invictus” é mais um filme de um artesão aplicado e com muita grana como já foi apontado no comentário anterior. Claro que já assisiti filmes dirigidos por Eastwood com satisfação, alguns podem mesmo ter dado muito certo, mas meu conceito de “clássico” e de linguagem cinematográfica clássica (independente de quando o filme foi feito) é um pouco diferente. “Invictus” é bem a cara do Eastwood “caretão” (gostei do adjetivo, bem aplicado) canonizando à americana um líder político com incrível capacidade de integrar razoavelmente um país gravemente dividido com métodos e meios políticos que podem servir a propostas ideológicas e de praxis de governo radicalmente antagônicas, como sua observação acurada tão bem apontou a todos os de olhar mais descompromissado ou mais inocente. A grande diferença é que se a Copa de 1970 por aqui unia (superficialmente, vamos combinar), o carrasco Médici e seus asseclas aprofundavam a divisão dos brasileiros no que importa mais do que futebol. Já Mandela e a proposta de confissão-perdão por parte dos executores do apartheid visava à verdadeira anistia na forma ideal do conceito de anistia, mais do que uma palavra. Sobre este processo ocorrido na África do Sul pós-Mandela, há um interessante filme do John Boorman com a Juliette Binoche chamado “Em Minha Terra” que se utilizou de depoimentos reais destes episódios e que acabam sendo o melhor do filme ao demosntrar o que pode ser – de fato – o perdão. Segundo uma antiga canção brasileira, “foi feito prá gente pedir”, mas difícil mesmo é – de fato – perdoar.

    • Gallego, assim como existe distinção entre “antigo” e “velho”, também existe entre “clássico” e “um clássico”. No meu entender, quando se fala que Clint tem linguagem clássica é porque usa os cânones tradicionais da narrativa. No caso de “Invictus”, traduzi isso por “caretão”. Em outros filmes dele, eu diria que o estilo é clássico mesmo. Já um filme considerado “um clássico” é porque teria, digamos, entrado para o panteão dos grandes na história do cinema. Por exemplo, Oito e Meio é um um clássico com linguagem nada clássica, né? Já os “clássicos” das locadoras, isso aí é papo pra Gondry e seu chatíssimo “Rebobine, por Favor”.

  3. Para variar, colocou a pulga atrás da minha orelha… Eu gosto dos jornalistas que me confundem. É neles que presto atenção… Olha você aí! 🙂 Concordo com o roteiro simples; mas sou daquelas que acham a simplicidade um luxo (como você); embora os planos de câmera aéreos e as supergruas revelem o enorme orçamento nada a ver com o cinema (simples) iraniano, que desperta tanto o nosso apreço. Ponto para o filme: sou tarada por histórias de liderança positiva e pelo poder do esporte. E Mandela nos dá um exemplo de liderança incrível e é inspirador pela capacidade de perdão… São características que humanizam o grande estrategista político e que nos dão outras experiências – importantes à juventude apolítica – grande maioria do público que vai ao cinema – e sem referências (e que a rejeição ao Lula – uma pena – não dá conta de resolver). Há diferença do Médici; embora eu entenda o teu resgate – união da nação em torno do esporte. Aqui, futebol é esporte de gregos, troianos, mulatos, azuis, índios, amarelos e brancos. Brasil é futebol. Já na África do Sul, o rugby era vinculado estritamente aos brancos e despertava o rechaço dos negros. Daí, a tremenda sacação política e não necessariamente oportunista (no sentido mau da palavra). Não sei se você leu “Long Walk to Freedom”, a autobiografia do Mandela. É um dos livros mais impactantes da minha vida e considero que o mérito de Clint e Morgan está na fidelidade à história e ao retrato comercial e atrativo daquele personagem. Em 2h, a partir do rugby, a gente entende perfeitamente quem foi o Mandela e o que representou àquele país. É coisa linda de ver… Lula, devido à excessiva politização pós Festival de Brasília, penetrou muito pouco no público jovem. Houve uma intelectualização exacerbada da obra – uma pena, claro -, mas é nosta realidade. “Invictus” cumpre um papel importante. Beijos!

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